quinta-feira, 6 de março de 2014

Carta a um Amigo - Casa de Euterpe


Querido Amigo,

Anos separam o dia de hoje de nosso último encontro. É provável que, tanto quanto eu, tu tenhas também mudado. Ao receber tua carta, senti imensa alegria de retomar contato contigo. Satisfazem-me as notícias que encontro flutuando em tua missiva! Parece-me que tens tido sucesso no trilhar o caminho de tua vida. Percebo que o ápice profissional te sorri, pois me relatas as diversas insígnias com as quais foste honrado no decorrer do tempo.

Nessa carta, questiona-me acerca de diversas questões que te responderei com prazer. Se vivo bem?

Sim, vivo muito bem. É certo que o mundo da matéria não me causa preocupações, pois, assim como tu, também tenho um bom emprego, alguma segurança financeira e uma família. Todavia, esses não são os motivos determinantes do meu bem viver. Vivo bem porque, há algum tempo, decidi viver cada minuto como se fosse o último. Essa decisão dá qualidade a tudo o que faço e ensinou-me a fazer o que realmente importa; ensinou-me, ainda, a valorizar cada momento, cada ação, cada atitude. Aprendi, também, que existem coisas que dependem de nós e outras que não dependem em absoluto. Dessa forma, preocupo-me com aquelas que dependem e isso, caro amigo, direcionou muito as minhas energias e colaborou para que eu tenha disposição.

Perguntas-me se tenho problemas.

Claro, todos temos. A dor tentará agredir-nos sempre. Porém, vivo bem apesar dos problemas. Isso porque aprendi que esses tais devem ser considerados como provas, as quais devo olhar de frente, identificar e enfrentar. Aprendi que tais provas, quando enfrentadas, transformam-se em experiências e isso faz-me querer ultrapassá-las com honra, ritmo e dinamismo. Aprendi que a vontade é uma aliada nessas circunstâncias e que precisa ser ativada por nossos próprios meios, de dentro para fora. Vi, com o correr do tempo, que as provas sempre existirão, pois as circunstâncias encarregam-se de oferecê-las, bem como o nosso karma pessoal. Porém, minha postura diante delas é o que me dará, ou não, a condição de aprendizado. Assim, em verdade, posso afirmar-te que os problemas não me assustam ou paralisam. Sigo em frente, a despeito deles.


Perguntas-me se amo.


Sim, amo. Não tanto como deveria, pois sei que devo amar incondicionalmente. Filósofos antigos fizeram com eu soubesse que o amor é uma força tremenda que tudo une e, assim, não deve ser restringido, mas expandido. Hoje, amo aqueles que me são mais caros, aqueles que estão mais junto a mim. Todavia, trabalho incessantemente para ir, pouco a pouco, aumentando essa dimensão. Para amar a todas as coisas da natureza, sejam elas pertencentes ao reino mineral, vegetal, animal ou humano. Digo-te, querido amigo, que essa é uma batalha constante, uma construção pessoal e intransferível. Digo-te, ademais, que essa postura consciente ensina-me a ter convicção de que a separatividade é, sim, uma grande heresia, conforme nos ensina a grande filósofa russa Helena P. Blavatsky.

Perguntas-me se, por vezes, sinto-me só.

Não, amigo, nunca me sinto só. Embora, existam ocasiões em que procure a solidão, nunca sinto-me só. Quem tem amigos nunca está só. Não está só quem pode encontrar companhia em Homero, Virgílio, Dante e em todos os autores dos grandes clássicos da humanidade. Não está só quem pode conversar, no silêncio de seu quarto, com os grandes mestres de sabedoria. Não está só quem pode ter como companhia Bach, Beethoven, Chopin, Mozart. Não é só aquele que entende o silêncio como uma necessidade da Alma e, principalmente, nunca está só quem tem imenso prazer na companhia de si mesmo.

Perguntas-me se tenho medo.

O medo, meu muito caro amigo, é uma reação natural do organismo e um estado da alma. O medo sempre foi um propulsor para a humanidade: foi pelo medo da água que construímos pontes e navios; foi pelo medo do frio que aprendemos a construir abrigos; o medo da escuridão fez-nos descobrir o fogo; o medo dos males físicos impulsionou a ciência para descobertas inimagináveis. Porém, os grandes e antigos filósofos ensinam que tudo em demasia é prejudicial. Assim, a falta de medo, transforma-se em temeridade e pode levar a ações inconsequentes. O excesso de medo é ainda mais prejudicial. O não enfrentamento avilta o homem, o debilita e o humilha. O excesso de medo paralisa, entorpece a alma e estagna o ser humano. Dessa forma, querido, procuro deixar meus temores em um nível que não me paralise, que não me impeça de caminhar e, ainda que eles existam, caminho mesmo assim.

Perquires-me acerca de meu estado de saúde.

Respondo-te que procuro mantê-lo bem. Saúde, meu querido, não é apenas um bom estado físico. Vai muito além disso. Procura lembrar-te do que falei a respeito da constituição do homem. Assim, o estado saudável abrange emoções saudáveis e pensamentos saudáveis, campos mais sutis de nós mesmos, de nossa personalidade. Nossa psique é a sede de nossas emoções. Seu equilíbrio é condição de um estado saudável. Procuro esse equilíbrio por meio da elevação dos estados emotivos: ouvindo boas músicas; lendo bons e selecionados livros; evitando situações, atitudes e lugares que têm mais chance de torná-los grosseiros; e impedindo o excesso de suscetibilidade. Segue esses conselhos, caso algum dia sintas-te debilitado emocionalmente. Em relação aos pensamentos, exercito os pensamentos construtivos, procuro substituir uma imagem ruim por outra boa, saudável. Os pensamentos circulares, caríssimo, são uma grande armadilha e um ralo por onde escorre toda a nossa energia. Evita-os se queres manter-te mentalmente saudável.

Perguntas-me se sou feliz.

Digo-te, caríssimo, que sou muito feliz. Apesar de, por vezes, algumas lágrimas existirem em minha vida, sou feliz. Aprendi que os estados de tristeza, de desânimo, como tudo na natureza, são cíclicos. É necessário que tenhamos paciência (lembras da constância?) para superar esses estados e esperar que eles passem. Isso não acontece por um passe de mágica. Aqui, também, a vontade é ferramenta essencial para combatê-los. Embora esses estados existam não são mais capazes de paralisar minhas ações. Sei onde eles se radicam (lembras dos corpos que compõem o homem?) e, dessa forma, é muito mais fácil identificá-los, bem como as situações que os fazem aparecer. Ainda, sei que a felicidade não é presente dos deuses. Aristóteles, um antigo filósofo grego, ensina que ela é uma construção humana. Dessa forma, procuro construí-la dia a dia. Outra coisa que interessa contar-te é que a felicidade, em sua verdadeira acepção, não reside na personalidade (releias a formação superior do homem), mas sim em sua parte imortal e eterna. Quando auferimos consciência disso, quase nada mais pode afetar-nos. Essa aquisição, segundo o citado Aristóteles, é uma conquista individual. Reflete acerca disso!

Perguntas, quase temerariamente, se creio na morte. Leio tuas palavras como se fossem um sussurro…

Respondo-te: creio na morte da personalidade. Essa, realmente, perece. É como se vestíssemos uma roupa que, quando gasta necessita ser trocada. É natural e ocorre em todos os reinos da natureza. Porém, o que é eterno, o Ser que habita a tríade, este é imortal! Este nunca perece, migra de um corpo para outro em busca de experiências. Assim, não existe fim, mas continuidade e, por isso, precisamos trabalhar para termos o maior número de experiências possíveis em cada existência física, para que nossa estada por aqui tenha valido a pena!

De forma contundente, perguntas-me se acredito em Deus.

Sim, prezado, acredito veementemente em Deus! Não creio no Deus antropomorfizado das carcomidas religiões atuais. Acredito no Deus que se manifesta em tudo o que existe; naquele que está nos raios do sol do amanhecer; que está nas cores do céu do ocaso; que está nas muitas nuances das águas no mar; que está nas inexplicáveis texturas das flores; nas folhas coloridas pelo outono; no canto dos pássaros; na comida que alimenta e na água que sacia a sede; na guerra e na paz; no fácil e no difícil; que rege desde as galáxias até as moléculas que tudo compõem; que orienta a organização do Universo e a organização espetacular de um formigueiro! Creio nessa energia que está no homem, mas também nos minerais, nos vegetais e em todos os animais. Creio nesse Deus que não se preocupa com nossas mesquinhas necessidades, mas que nos outorgou o livre arbítrio, que nos dá liberdade e responsabilidade por nossas ações e omissões. Creio no Deus cuja mente pensou e concretizou todo esse mundo e para a qual o mesmo retornará ao final dos ciclos!

Questionas-me, também, a respeito da oração.

Oro todos os dias! Não tenho hora muito definida para isso, mas, inquestionavelmente, oro. Peço aos deuses que me concedam a energia necessária para a condução de meu dia; para que me confiram inteligência de modo eu possa fazer as melhores escolhas e para que eu aja de acordo com elas; peço que me outorguem atenção para que eu esteja presente em tudo aquilo que faço; peço, ainda, memória para que eu possa registrar as pequenas experiências que meu posicionamento perante as circunstâncias proporcionam-me. Solicito que eu compreenda a importância da concentração, de modo que possa sempre voltar ao centro e entrar em contato com o que há de divino em mim: meu Ego imortal. Enfim, oro para que eu compreenda o meu entorno e para que eu possa pôr a serviço aquilo que compreendo e aprendo.

Querido amigo, sua última pergunta permitir-me-á explicar minhas posições acima expostas. Perguntas-me se tenho religião.

Não. Absolutamente, não tenho religião. Sou filósofa! Sou filósofa à maneira clássica. Tu podes, ao ler estas linhas, indagar o que vem a ser isso. A Filosofia à Maneira Clássica faz a ponte entre os conceitos e a prática. Permite que eu possa exercitar em mim mesma tudo aquilo que os grandes filósofos da humanidade deixaram-nos como legado. Isso até que um dia todas essas ideias passem a ser minhas!



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