quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Mito do Rei Arthur - Casa de Euterpe

                   


                      O MITO

                      Os mitos são histórias sagradas, pertencentes ao domínio do divino e formam parte do simbolismo universal. Como formas sublimes, relacionam-se com o ser humano desde a sua mais tenra idade.
O mito e o simbolismo como um todo são uma semente e, ao mesmo tempo, uma fórmula acabada. Como semente é a intuição que chega de forma direta ao coração humano e cresce como linguagem simbólica, ou seja, da imaginação.
De acordo com o Professor Michel Echenique, os fatores componentes da fórmula do mito são: a medida, a proporção, o ritmo e a harmonia. Isso permite o desenvolvimento das ciências como a matemática, a estereometria e a dialética, entre outras.
Este mito em particular sofreu, através do tempo, uma série de transformações. Talvez, a mais importante seja a antropomorfização de todos os seus personagens com o fim de popularizá-lo e torná-lo acessível ao público comum.
Nas suas origens, os personagens que agora observamos são símbolos que formam parte de forças imponderáveis da natureza e de princípios e leis que regem o destino de todo o Cosmos. Esses personagens formam parte de uma doutrina esotérica que narra muitos mistérios por meio de sete chaves de interpretação, que tornam o Universo uma realidade possível de ser conhecida pelo ser humano.
Também nele encontramos uma espécie de Geografia Sagrada, que permite descobrir uma trilha que afasta o homem da dor e da existência condicionada, para projetá-lo a uma forma de vida insuspeita pelo homem moderno, muito mais plena e feliz.
Assim, pouco importa a origem histórica de Arthur e de seus Cavaleiros ou se existiram realmente. Neste momento, abordaremos o tema sob o aspecto psicológico do mito e uma de suas chaves de interpretação.
 A HISTÓRIA DE ARTHUR
A lenda indica Arthur como fruto da relação de Uther Pendragon (Duque de Cornuales) com a Princesa Igraine, mulher de seu inimigo Gorlois da Cornualha. Uther perdeu-se de amor por Igraine e esse desejo foi tão grande que persuadiu Merlin a usar seus poderes e transformá-lo em uma cópia de seu rival. Dessa forma, pode entrar no castelo e estar com Igraine sem que ela ou qualquer pessoa suspeitasse da sua verdadeira identidade. O filho, Arthur, foi concebido nessa união magicamente assistida.
De acordo com o estabelecido, o menino foi entregue a Merlin, que, por sua vez, o confiou a Sir Hector e à sua mulher. Ambos, tinham já um filho, Kay.
“Hector” significa humilhado, mas no inglês antigo e popular corresponde a bulley, que quer dizer “palavra”, “verbo”.
Kay é o nome da décima primeira letra do alfabeto inglês, número que no Tarô corresponde ao arcano “A Força”.
Isso indica que Arthur receberia de Hector a educação e de Kay, a coragem para ser rei.
Mais adiante, Arthur se converteu, efetivamente, em rei, após passar pela prova da espada na pedra, na qual estava inscrita uma profecia que dizia: “Aquele que for capaz de extraí-la de onde se encontra aprisionada como rei de toda Bretanha por direito divino será reconhecido.”
Depois de conduzir com êxito seu exército contra os invasores saxões e pacificar todo o país de Logres (Inglaterra), Arthur formou a Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, para a qual convocou os melhores cavaleiros do mundo.
PRINCIPAIS COMPONENTES DO MITO E SEU SIGNIFICADO SIMBÓLICO
Mesmo que as origens históricas de Arthur estejam ocultas na escuridão dos mitos, parece demonstrado que ele foi um rei do século V ou VI que reagrupou vários reinos, depois do desaparecimento da dominação romana do século anterior.
As lendas do ciclo artúrico são regidas pelas leis sagradas da Iniciação. O Rei Arthur, Merlin, Guinevere, Lancelot, Percival ou Galahad são arquétipos universais que pertencem ao acervo cultural de toda humanidade. Por trás de suas façanhas, encontra-se o simbolismo da eterna busca do homem pela Verdade, representada pelo Santo Graal.
Tais lendas são patrimônio de tradição mágica, pois é a interação do “outro mundo” com a nossa dimensão. São, por fim, conhecimentos da experiência humana, procedentes de uma dimensão atemporal.
Dessa forma, reconhecendo que a linguagem do mito é o símbolo, relacioná-lo com os principais elementos dessa história será o nosso objetivo.
O Santo Graal
Um dos temas principais das lendas do Rei Arthur é a busca do Santo Graal, que foi estreitamente vinculada à Ordem da Cavalaria da Távola Redonda.
O Santo Graal da literatura medieval européia é o herdeiro de dois talismãs da religião celta pré-cristã: o Caldeirão do Dagda e a Taça da Soberania. Assim, a lenda do Graal é uma versão cristianizada do antigo tema do caldeirão celta. Porém, o Graal é algo muito mais profundo e esotérico do que nos contam essas histórias tardias e cristianizadas.
Embora, o simbolismo do Graal no Ocidente tenho sido propagado fundamentalmente por via do cristianismo, as autênticas origens da lenda encontram-se no antigo motivo do recipiente sagrado que é símbolo de poder e fonte de milagres.
Assim, o Graal representa o recipiente que preserva a vida no mundo e por isso simboliza o corpo da Deusa ou da Grande Mãe: relaciona-se com os cultos à vegetação e constitui um vestígio dos ritos iniciáticos e da fertilidade. Poderia dizer-se que seu simbolismo é praticamente inesgotável. Em alquimia, equipara-se com a pedra filosofal, cuja representação é a união com Deus. No budismo tibetano, encontra-se um equivalente nos crânios humanos que representam recipientes de transformação.
Nas tradições arturianas, ele tem o poder de dar a cada um o prato de carne de sua preferência: seu simbolismo é análogo ao da cornucópia.
Dentre os inúmeros poderes que tem, além do poder de alimentar (dar a vida), contam-se o de iluminar (iluminação espiritual) e o de se fazer invencível.
Para Jung, o Graal simboliza a plenitude interior que os homens sempre buscaram. Seu ideal é a busca da Verdade, do eu interior.
A Demanda do Santo Graal exige condições de vida interior raramente reunidas. As atividades exteriores impedem a contemplação que seria necessária. Ele está perto e não é visto. É o drama da cegueira diante das realidades espirituais, tão intensas quanto mais se crê na sinceridade da busca. Na verdade, o homem está mais atento às condições materiais da Demanda que às suas condições espirituais.
A Demanda do Graal inacessível simboliza, no plano místico, que é essencialmente o seu, a aventura espiritual e a exigência de interioridade que só ela pode ter. A perfeição humana não se conquista a golpes de lança como um tesouro material, mas por uma transformação radical do espírito e do coração.
O Graal conserva-se oculto às pessoas comuns; chega-se ele trabalhando em uma longa peregrinação e é conseguido por meio de alimento espiritual. Todo caminho é pessoal, já que cada um se alimenta com o que necessita e faz o esforço devido para conseguir ver, sentir e fazer reinar Deus em seu próprio coração. O Graal é a instância final.
Conforme ensina o Professor Taboada, o Graal é, indubitavelmente, um estado de Consciência.
O Reino de Avalon
A terra sagrada das noviças devotadas à antiga Deusa, também chamada de Grande Mãe, foi palco de grandes acontecimentos na saga do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Avalon, a “ilha das maçãs”, ficava na Inglaterra, em um lago rodeado de juncos, envolta em uma fechada cortina de bruma. Depois que a neblina se abria, um barqueiro misterioso conduzia o visitante até o lugar sagrado.
Viviane, a Senhora do Lago, liderava as donzelas que viviam em retiro devotado à Deusa. Mais tarde, foi sucedida pela fada Morgana, meia irmã do Rei Arthur. Segundo a lenda, uma mão surgida das águas do lago de Avalon presenteou-o com sua lendária espada Excalibur.
Avalon é o lugar sagrado onde permanece o Graal para alimento e conservação dos Cavaleiros que conseguiram chegar até ela.
Avalon foi o refúgio preferido de Arthur, que para lá se dirigia em busca de conselhos ou para se curar magicamente das feridas de guerra.
Foi uma ilha de iniciação, uma pátria notadamente espiritual, um lugar onde o mágico só pode ser superado pelo mágico. Sempre será reconhecida como pátria do Graal e assim, está em nosso interior como um refúgio destinada às nossas reflexões.
Camelot
Camelot, o grande castelo, é a sede do Rei Arthur e da Ordem da Távola Redonda. É um lugar onde se rende culto à nobreza, fidalguia, valor, temperança e amor cortês. Camelot pode ser considerada como o centro luminoso de nosso mundo íntimo.
Em algum momento de nossa existência, nasce-nos a vontade de realizar algo que valha a pena, que justifique nossa passagem pela vida. No nosso mundo íntimo está esse impulso do qual necessitam os sonhadores e os aventureiros das idéias. Sem esse impulso não se pode concretizar idéias e nem realizar sonhos.
Esse ponto luminoso de nossa consciência, fonte de toda a inspiração criativa é Camelot.
Dessa nossa Camelot interna orientam-se nossas futuras experiências para algum provável destino, que sabemos verdadeiro. Camelot alimenta nosso afã de perfeição. Sem ela não podem existir os idealistas.
Ela é a pequena partícula de sonho que tem a grande capacidade de sobrepor-se à tediosa realidade cotidiana.
Quando o homem toma consciência de sua Camelot interna, polariza para ela todo seu ser. Então, sua visão adquire sentido de grandeza, sintetizando em um Ideal esse supremo sentimento do Ser e da Eternidade.
Camelot será, sempre, rebelde ao tempo e ao espaço e por meio dele chegaremos à pátria do Graal.
 A Espada do Poder – Excalibur
Arthur extrai a Espada da Pedra durante um torneio que escolheria o novo rei, após a morte de Uther.
A lâmina de metal que surgiu da pedra, quando a Espada foi retirada, indica o material, enquanto a Espada em si indica o espiritual atuando sobre a matéria. A matéria é o próprio indivíduo – Arthur – que recebe o Verbo como precioso dom, pois é puro.
O homem só se transforma em rei quando consegue ultrapassar seu ego, seus instintos e paixões.
Ao retirar a Espada, Arthur adquire poder. O homem medíocre apóia seu poder em meios externos, pois só assim pode encontrá-lo. O eleito o recebe quando sua plenitude de consciência o acredita preparado para tal responsabilidade.
O débil vê no poder uma finalidade. O forte, só um meio.
Assim, Arthur se outorga um poder porque em seu interior existe algo em sintonia com esse poder (sua capacidade para extrair a espada aprisionada), algo que nenhum dos que tentaram antes possuíam.
A Espada Mágica, Excalibur, então, faz alusão ao poder, mas ao poder viril e o fato de extraí-la da pedra significa que um poder está sendo liberado da materialidade. O homem, segundo as tradições esotéricas, possui o princípio de uma força de natureza viril que, ao liberar-se, manifesta-se como um poder de mando com características mágicas. Para isso, o homem deve encontrar-se em um estado de pureza ideal, que é representado alegoricamente pela infância de Arthur no momento da extração da Espada.
Como o poder é outorgado para que o eleito possa cumprir seu mandato divino, então, uma vez concluído o trabalho, deve ser devolvido o dom. Assim, depois da última batalha, Arthur, ferido mortalmente, entrega Excalibur e ela é devolvida às profundezas do Lago Encantado.
A Távola Redonda
A Távola Redonda pertenceu ao Rei Uther Pendragon. Após a morte de Uther, a mesa passou pertencer a Leondegrance, pai de Guinevere e este, posteriormente, deu-a para Arthur como presente de casamento.
À sua volta, reunia-se a Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda.
Para Jung, o círculo é o símbolo da psique (o próprio Platão descreve a psique como uma esfera).
A Dra. M.-L von Franz explica o círculo como o símbolo do self (morada da Alma). Ele exprime a totalidade da psique em todos os seus aspectos, incluindo o relacionamento entre o homem e a natureza. Não importa se o símbolo do círculo está presente na adoração do sol ou na religião moderna, em mitos ou em sonhos, nas mandalas desenhadas pelos monges do Tibet, nos planejamentos das cidades ou nos conceitos de esfera dos primeiros astrônomos: ele indica sempre o mais importante aspecto da vida – sua extrema e integral totalização.
Na seita zen, o círculo representa o esclarecimento, a iluminação. Simboliza a perfeição humana.
De acordo com o Dicionário de Símbolos, “em primeiro lugar, o círculo é um ponto estendido; participa da perfeição do ponto. Por conseguinte, o ponto e o círculo possuem propriedades simbólicas comuns: ausência de distinção ou de divisão. (...) O círculo é considerado em sua totalidade indivisa.
Assim, a Távola Redonda (círculo) representa a integralidade do homem, sua harmonização. Aquele que está pronto para a viagem em busca da plenitude espiritual, representada pelo Graal.
Arthur: o Rei do Mundo
O Rei Arthur representa em si uma função régia, vinculada intimamente à tradição hiperbórea (adoradores do Sol). A figura de Arthur através de analogias feitas com a mitologia celta, pode ser relacionada com o Deus Artarus, que se supõe tenha roubado do recinto dos Deuses um Caldeirão Sagrado, cuja principal virtude era o conhecimento supremo.
O nome Arthur pode ter várias interpretações. A que parece mais acertada é a significação da palavra celta Arthovirus: arthos – urso e viros – homem.
Arthur exibe uma imagem viril e guerreira, uma imagem que concorda com a tradição hiperbórea. Na linguagem latina, Arthur será traduzido como Ursus Horribilis.
É inegável que o Rei leva em si a imagem do gênio celta.
Tem-se estabelecido um contato verdadeiro entre o Rei Arthur e o principio do Ser Universal. Entretanto, não se trata de um título e sim de uma função, ou seja, de uma potestade para transformar o reino de Arthur na pátria do Graal.
Assim, podemos imaginar que o reino de Arthur seja nossa personalidade (quaternário) e que o arquétipo do Rei encarna o poder de transformá-la na pátria do Graal – estado elevado de consciência. Arthur, aqui, seria o Arjuna indiano, aquele que quer lutar para transpor seus estados inferiores.
  Merlin: o Encantador
Esse mago representa o mestre, o guru indiano, o sacerdote que guia as almas, o xamã.
Seu nome provém, por um lado, de merlius e merculinus, termos que significam mercurial, mercúrio. Em inglês, Merlin é o nome de um pássaro da família do mirlo. Possui cor negra e tem o peito branco, representando a união do branco e do negro, o equilíbrio de pares opostos.
Ele tudo vê e tudo sabe. Assim, pode oferecer aos eleitos uma aventura diferente, para que cada um possa, por uma via que lhe seja própria, ascender ao mistério.
Merlin não é um herói, nem um messias. Ele é um mago e suas armas são a magia e a sabedoria. Sua função não é a de realizar façanhas, mas, sim, a de educar um Rei e a de presidir a fundação da Ordem de Cavalaria que seria modelo de todas as confrarias: a Ordem da Távola Redonda.
Cumprida sua missão no mundo, Merlin se retira da existência para dirigir-se ao mais profundo do bosque. Deixa a cena artúrica antes que se inicie a sagrada busca do Graal. Retira-se para o Bosque de Bronceliante, desaparecendo no seio daquele mundo da magia que ele mesmo havia construído em meio a uma realidade inefável, transcendente e metafísica. O grande mago retorna a si mesmo.
Merlin foi o intermediário entre o inconsciente e os homens, entre o Abismo Insondável e o espaço-tempo que ocupa a história, entre o silêncio primordial e a expressão manifesta em símbolos reveladores. Desde o seu nascimento até o seu “sono” mágico, cumpriu seu papel de xamã, de fazer a ponte entre o reino dos homens e o divino.
 Gawain: o Cavaleiro Perfeito
Sir Gawain é um iniciado no círculo sagrado da Távola Redonda e, portanto, comprometido com uma vida modelo, coerente com o Ideal Cavalheiresco.
Conta a história que Sir Gawain se submete para ser decapitado pelo Cavaleiro Verde:

“No dia do Ano-Novo, quando o rei, a rainha e a corte estão reunidos para um jantar, um cavaleiro de tamanho incomum entra no casarão com seu cavalo. Pede que algum cavaleiro ali presente lhe dê um golpe no pescoço com o machado que ele carrega e que, no próximo Ano-Novo, o oponente esteja na Capela Verde para receber, por sua vez, o seu golpe. O cavaleiro e suas roupas, assim como seu cavalo, os trajes e os arreios, tudo era verde. O ouro e o aço estavam manchados de verde, os arreios reluziam e cintilavam com pedras verdes e filetes de ouro estavam entrelaçados na crina verde do cavalo. Artur imediatamente se oferece para o desafio do cavaleiro, mas Gawain se interpõe e o toma para si. Com um golpe de machado, decepa a cabeça do cavaleiro que rola pelo chão, espalhando sangue na carne verde. O cavaleiro verde recolhe a cabeça. Levanta as pálpebras, olha vivamente e então encarrega Gawain de encontrá-lo naquele dia, após um ano, na Capela Verde. Segurando a cabeça pelos cabelos verdes, monta em seu cavalo e deixa o casarão.
Um ano depois, para manter a palavra, Gawain chega ao castelo de Bertilak, anfitrião cordial e generoso que, por ter cor normal, não é reconhecido como sendo o cavaleiro verde. Gawain chega ao castelo em completo estado de exaustão. Recebido com hospitalidade, envolvido em um manto de arminhos enfileirados, é convidado a sentar ao lado de uma lareira com brasas de carvão. Quando Sir Bertilak retorna ao seu castelo, depois da caça, recebe o hóspede com muita cortesia e combina com ele que daria o produto de sua caça a Gawain todo dia e, em troca, Gawain lhe daria algo que tivesse recebido no castelo.
Durante a sua estada no castelo, Gawain recebe de manhã, antes de sair da cama, a visita da bela mulher de Bertilak, se vendo obrigado a resistir às suas investidas. Por dois dias assim o faz, aceitando somente beijos que, à noite, transmite a Sir Bertilak em troca da caça. Na terceira manhã, porém, a senhora oferece-lhe um cordão verde que o protegerá de qualquer feriment. O medo de sua provação faz com que o aceite, mas esconde o fato de seu anfitrião. Quando chega o dia do Ano Novo, para honrar seu compromisso, ele sai em busca da Capela Verde. Achando o local, o Cavaleiro Verde aparece para devolver o golpe de Gauvain. Se ele não tivesse aceitado o cordão verde, o machado teria caído sobre ele inofensivamente, mas, como isso não aconteceu, o machado esfola sua pele e seu sangue jorra. Agora revela-se que o Cavaleiro Verde é o próprio Bertilak, que havia sido enfeitiçado pela irmã de Artur, a fada Morgana. Depois de trocarem muitas cortesias, Gawain parte e retorna à corte de Artur, a quem confessa sua pequenez por ter aceitado o cordão.”

Decapitar, na tradição arcaica, significa dar morte à alma carnal.
Gawain é um ser humano especial, um discípulo em sua trilha iniciática, porém, acima de tudo, um ser humano, cujo único poder reside, talvez, em um profundo amor à vida e isso não altera sua disposição em deixá-la no momento em que as supremas virtudes o exigem.
O conceito de morte não é dos Deuses. Pertence aos homens que ainda não tomaram consciência de seu ser atemporal. Por isso, homens admiram Sir Gawain. Ele não teme a morte e é valente e abnegado.
O herói foi o modelo do perfeito cavaleiro. Homem sem mácula, que representa o exercício supremo do dever de servir a seu Rei e a seu Ideal Cavalheiresco. Exemplo de abnegação, idealismo, sentido de dever, Gawain foi um símbolo concreto daquela antiga cultura celta, verdadeiro arquétipo dessa tradição primordial.
Foi suficientemente valoroso para desfazer as aparências do mundo das ilusões e dos desejos e atreveu-se a viver uma experiência atemporal.
Sir Gawain representa a psique masculina medieval em si mesma, nas angústias de suas aventuras caracteristicamente viris. É o real herói da cavalaria inglesa arcaica. Difere de Lancelot, pois manifesta sua masculinidade de forma objetiva.
Lancelot Du Lac: o Cavaleiro do Lago
Esse Cavaleiro representa o ideal varonil que existe na imaginação feminina. É o arquétipo de animus, essa imagem viril que habita a psique da mulher.
Lancelot foi criado entre as águas (o oculto, o profundo) por seres sobrenaturais (Dama do Lago), pelas fadas e também por um lenhador para que pudesse atuar sobre a Terra. O lenhador simboliza a madeira, a lenha e o fogo que atua sobre ela. É símbolo da sabedoria e da morte.
Assim, Lancelot representa, em primeiro lugar, o oculto, o profundo, as forças do inconsciente coletivo (criação nas águas) manifestando-se na consciência e, em segundo lugar, a Sabedoria (lenhador).
Seu nome significa Cavaleiro da Lança. A lança também tem sua simbologia: representa o poder. Significa, ainda, a verdade, pois é reta e não se torce. O ferro da lança representa a força que tem a verdade sobre a falsidade; e o pendão, que a verdade se mostra a todos.
Lancelot foi o protótipo do Cavaleiro justo, forte e leal (apesar do episódio de adultério).
Conta a lenda que para demonstrar seu valor a Arthur e merecer ser digno defensor da rainha, decidiu libertar o Castelo da Guarda Dolorosa. Para isso, deveria livrar a fortaleza de um conjuro, escolhendo entre duas provas:
- passar quarenta dias entre pessoas do Castelo, vítimas de sortilégios e encantamentos; ou
- procurar a origem de tais sortilégios, pondo em risco a própria vida.
Escolheu a segunda prova. Conseguiu entrar na sala proibida do Castelo, onde contemplou uma dama com duas argolas. O herói deveria, novamente, escolher entre a primeira, que devolveria a donzela à vida, ou a segunda, que abriria um perigoso poço. Lancelot optou pela segunda e liberou, assim, as forças escuras. Lutou contra elas até derrotá-las e o Castelo transformou-se na Fortaleza da Guarda Gozosa.
A sala proibida é o próprio interior do ser, o lugar que não pode ser profanado, onde só pode ascender um homem puro para libertar a Alma – a donzela acorrentada – do ciclo de nascimentos, existências, mortes e renascimentos.
A façanha guerreira de Lancelot mostra-nos as provas que todo aspirante à iniciação deverá atravessar. Deverá escolher entre a senda plana, dos atrativos desse mundo, ou buscar aquela que é escura em si mesma e combatê-la até sua desaparição.
Percival: o Buscador
Sir Percival deve ser observado a partir de dois aspectos: o mítico buscador incansável, que se mantém constante e persistente em sua interminável busca do sagrado e o guerreiro esforçado e invencível, que finaliza sua empresa sagrada de um modo excepcional e se transforma em um herói.
Percival simboliza o homem peregrino, na busca do infinito, representa as sucessivas provas iniciáticas de todo candidato. Terríveis e desesperadas provas, mas que devem ser efetuadas com êxito para se ascender ao Santuário do Graal.
O jovem Percival vivia no coração de um bosque com sua mãe, viúva de Cavaleiro que odiava o canto dos pássaros e desejava separá-lo da visão do mundo exterior.
Um dia, o jovem viu passar cinco Cavaleiros que pensou fossem anjos, e, desse dia em diante, desejou participar como eleito da Távola Redonda. Não podendo evitar sua partida, sua mãe morreu de dor pela perda do filho. Esse foi o primeiro grande crime de sua inocência.
Ao chegar à Corte de Arthur, Percival venceu o Cavaleiro Vermelho e ficou com suas armas, sendo recebido na Távola Redonda.
Percival era um espírito inocente, pois proveniente do bosque (símbolo do erro e da escuridão do mundo e também da matriz da Mãe Universal).
Sua vocação para a cavalaria indica seu desejo de consagrar-se na busca da verdade. A mãe, símbolo da Natureza, tentou segurar o homem com suas miragens. A linguagem dos pássaros que, na tradição espiritual, simboliza a chamada da alma e a música primordial do espírito, representa os estados superiores do Ser. É o símbolo da espiritualização que à sua mãe aborrece, demonstrando, claramente, o desejo da matéria de enclausurar o espírito, evitando, assim, que o homem descubra a verdade da trama ilusória de Maya.
Percival possuía o desejo da iluminação e sua via era do coração. Por isso, escolheu as armas do Cavaleiro Vermelho que tem a cor do sangue e do sacrifício, entendido o termo “sacrificar” como “converter em sagrado”. Todavia, sua inocência era muito grande. Percival era puro, mas não sábio. A pureza deveria converter-se em sabedoria por meio do processo iniciático.
Após ser aceito na Ordem da Távola Redonda, Percival visitou Gonerman, o Homem Prudente, que lhe ensinou o ofício das armas e as virtudes da cavalaria.
Em sua busca pelo Graal, Percival chega ao Castelo do Rei Pescador que sofria de uma doença incurável. Ali, foi recebido em um grande salão, onde, assombrado, contemplou um empregado que segurava uma espada com sangue. De trás, uma donzela segurava o Santo Graal em suas mãos. Uma grande auréola deixava-se ver por toda a sala, quando o cortejo para em frente de Percival. Nesse momento, ele não se atreveu a fazer a pergunta:
- “A quem serve o Graal?”
Faltou-lhe coragem e com isso infringiu uma das leis sagradas da iniciação. Seu erro condenou o mundo a viver na escuridão e o homem, simbolizado pelo Rei Pescador, a sofrer o tormento de uma ferida que jamais se fecha.
Percival perdeu a memória de Deus e lutou em combates terríveis contra cavaleiros desconhecidos, vagando pela Terra como um vagabundo. Entrou, dessa maneira, no ciclo maturativo, uma vez que a inocência deveria ser ungida pela experiência.
Um dia, encontrou uma donzela vestida em farrapos que lhe comunicou que seus lábios não puderam abrir-se na presença do Graal em castigo por ter deixado sua mãe morrer pela dor de sua partida. Essa donzela representa a própria consciência interior que se coloca à frente das consequências cármicas de nossos atos.
No final de sua peregrinação, Percival foi liberado da ilusão de sua própria mente e, alçando a iluminação, percebeu diante de si a imagem do Castelo Virtuoso. O Graal apareceu de novo e, dessa vez, ele ousou fazer a pergunta. Nesse instante, o Rei Pescador recuperou a saúde e o designou como legitimo sucessor.
A lenda afirma que Percival morreu no momento da contemplação do Graal. Tal acontecimento pode significar a morte da personalidade ante o alcance da plenitude espiritual, interior, representada pelo Graal.
Galahad: o Conquistador
Filho e Elaine de Corbenic e de Sir Lancelot, Galahad superou seu pai, tanto na Cavalaria, como na pureza de sua vida e tornou-se o campeão do Graal, juntamente com Percival.
Porém, para que esse herói pudesse coroar a sua grande aventura do Graal, deveria passar por diversas provas iniciáticas que o qualificariam e provariam que ele era o eleito.
Foi armado cavaleiro por Lancelot e chegou à Corte de Arthur no Dia de Pentecostes. Armado Cavaleiro, Galahad deveria começar sua peregrinação, deveria provar a si mesmo, defendendo a Justiça, ajudando os pobres, os débeis, os famintos e as damas, dedicando sua vida à maior Glória de Deus.
Retirou uma espada da Pedra de Mármore Vermelho. Essa Espada retirada da pedra é símbolo do poder espiritual que lhe dá superioridade tal que, por seu intermédio, os demais Cavaleiros certificam-se da existência do Graal, conseguindo vê-lo por alguns instantes.
É esse Cavaleiro predestinado que inicia a sagrada busca. A partir disso, todos os Cavaleiros da Távola Redonda se lançaram à conquista do Graal.
Galahad, o adolescente puro e livre que não caiu em tentação, representa o Paladim, cujo símbolo é o Arqueiro que dispara a flecha que libera. Por isso, ver o Graal libera, quer dizer, eleva o espírito até outros planos mais sutis, onde Tudo é Um e Um é Tudo.
A pureza de Galahad se refere ao sentido unitário de seu mundo íntimo. Ele conseguiu unir todas as partes que estavam fragmentadas e pode ser o Rei do Graal. Nós podemos sê-lo também, quando houvermos despertado o Galahad que existe adormecido em nosso mundo íntimo.
Mordred: Mau Conselho
Mordred é filho incestuoso de Arthur e Morgana. Aproveitou-se da debilidade do reino e da ausência do Rei, quando os Cavaleiros se dispersaram em busca do Graal, para apossar-se do trono. Foi morto por Arthur, a quem feriu mortalmente.
Mordred, em linguagem nórdica, significa “mau conselho”. Passa a ter relevância quando a época dourada de Camelot entra em seu declínio.
Representa uma espécie de energia bipolar. Uma energia que devemos, sempre, acima de todas as coisas, ter sob controle. Caso contrário, Mordred toma o poder pela força e a primeira coisa que faz é matar o Rei da Luz.
Mordred é o lado escuro de nossa própria natureza. Está sempre oculto em cada um de nós, esperando a oportunidade para aparecer inesperadamente e consumar o golpe que, de maneira inevitável, será a causa de nossa própria destruição.
O Rei Arthur representa a consciência, ou seja, a nossa própria existência psíquica. Mordred é esse complexo que tem sua própria existência independente de nós mesmos. Jung chama esses complexos de unidades viventes da psique inconsciente, como se fossem personalidades ou psiques fragmentárias independentes do controle consciente e que se manifestam ou deixam de fazê-lo segundo suas próprias tendências.
Tais fantasias são tão poderosas e tão nocivas e persistentes quanto os estado físicos. Esses transtornos anímicos impedem que nosso espírito possa adquirir sua própria forma de existência.
Mordred representa a besta e o demônio que dorme em todo indivíduo. É nosso “filho psíquico” a quem cedo ou tarde teremos de enfrentar, nos sujeitar ou destruir – um passo necessário para estabelecer a total soberania de nosso próprio Ser.
Necessitamos enfrentar nossa própria besta, nossos demônios, que não são outros senão nossos temores e falsas crenças e vencê-los no campo de batalha da vida consciente.
Morgana: a Fada (Morgana Le Fay)
Seu nome significa “a nascida do mar”. Assemelha-se à Vênus grega, símbolo do Amor espiritual e está sempre associada à magia da Ilha de Avalon.
Morgana é o espírito tutelar ou a Deusa do lugar. A animosidade que sente por Arthur é proveniente de seu caráter provocativo que tem a necessidade de colocar em prova os humanos para averiguar quem é realmente merecedor de seu favor.
Pode ser entendida como tudo aquilo que nos põe à prova e, normalmente, expressa o poder destrutivo das emoções – a perdição dos seres humanos quando caem sob seu domínio. Provoca situações que desequilibram emocionalmente, pois para conquistar o transcendente (o Graal), o individuo deve superar o estágio das emoções antes que elas o dominem.
Sua função, além disso, é guiar e iniciar provas e verificações, fazendo com que a Irmandade da Távola Redonda passe de uma simples Ordem de Cavalaria para um grupo de Cavaleiros Iniciados. Assim, será sempre uma imagem de força e de poder manifesto.
Guinevere: a Noiva Florida
As damas do ciclo artúrico enquadram-se em duas categorias bem diferentes e são representadas por dois tipos de mulheres: Guinevere e Morgana.
Diferenciam-se até no aspecto físico: Guinevere com cabelos ruivos ou loiros, bela e de aspecto inocente; Morgana, morena e sóbria.
Guinevere fora educada em uma escola cristã e encarna os valores da nova religião cristã e patriarcal.
É a encarnação do princípio que alimenta toda vida manifesta. Era a vida e a alma de toda a corte. Seu nome significa “espírito branco” e é comumente associada à Primavera e conhecida como Noiva Florida. Assim, pode ser associada à Deusa celta Ainé, filha do Deus Owel (o Danaan), a dama da fertilidade e do amor, padroeira das colheitas e protetora do gado.
Por um lado, na mitologia celta, a mulher é a força capaz de fazer o homem transcender sua condição humana. Por outro, os textos da Saga do Graal colocam a mulher como tentação luciferina. Essa tentação não se refere precisamente ao lado sensual da mulher, mas à conquista da feminilidade inibida e sufocada em algum rincão do inconsciente.
Todos esses mitos têm expressado a idéia de que dentro de um mesmo corpo coexistem o masculino e o feminino. Assim, Guinevere pode representar, segundo C. G. Jung, o anima que existe dentro dos corpos masculinos.
CONCLUSÃO
Dois temas relacionados com a saga arturiana apresentam aspectos diferentes no que se refere ao ideal que impulsionou a aventura da busca. E é precisamente essa dicotomia que permite a distinção entre o poderíamos chamar de Cavalaria Terrena e de Cavalaria Celestial.
A Cavalaria Terrena teria como ideal a mulher, enquanto a Cavalaria Celestial abraçaria como objetivo a conquista do Santo Graal.
Para a conquista do Graal – a plenitude interior - a pergunta que orientou Galahad deve ser feita por cada um de nós: “A quem serve o Graal?”, ou seja, “A quem serviria a plenitude interior?”
Todos procuramos algo e a grande busca da humanidade se resume em uma única coisa: a busca da Felicidade. A Felicidade significa que devemos servir-nos do Graal? Ao pensarmos assim, lembremo-nos de que “o Graal serve ao Rei do Graal”.
É necessário assumir que o Graal não tenciona nos servir, mas, sim, servir ao Divino. Dessa forma, o grande objetivo da vida, da plenitude interior, é buscar mais além das realizações egoístas: buscar o serviço impessoal. Ai se encontra a raiz da verdadeira Felicidade, proporcionada pela plenitude e responde à pergunta anterior acerca de a quem serve o Graal.
Assim, a pergunta que mais significado tem é: “Qual a minha função nesta vida?”, “Como posso fazer para que esta vida tenha algum valor?”
A resposta a tais questões pode levar-nos a ver que a Felicidade não significa a alegria plena por haver obtido realizações egoístas, mas estarmos em harmonia conosco mesmo. A Felicidade germina na dor que gera a luta para conquistarmos a nós mesmos, para sermos o que realmente somos.
O Mito ensina-nos que somente no Castelo do Graal podemos alcançar a plenitude, conhecer a perfeita Felicidade, a alegria de uma satisfação absoluta. A isso nos lançamos de uma maneira quase selvagem, a fim de reencontrar essa maravilha perdida, capaz de saciar nossa fome espiritual. Isso encerra o grande significado da vida e o encontro do Graal. Todos somos parte de um mito inconcluso: o mito de nossa própria existência. Cabe-nos escolher nosso próprio final.
A busca do misterioso reino do Graal (a Felicidade proporcionada pela plenitude interior) é o segredo para esse final, é o desígnio de todo homem na aventura da Alma. Nessa aventura, podemos escolher a companhia de um escuro Mordred, assim como podemos refletir o Melhor Cavaleiro do Mundo (Galahad).
Fazer essa escolha distingue o idealista – uma raça destinada a enaltecer a humanidade. Esses idealistas são os mesmos cavaleiros que se sentaram ao redor da Távola Redonda, próximos a Arthur, no salão principal da mítica Camelot. O mesmo ímpeto os anima: a busca pelo conhecimento da verdade, a plenitude interior.
Todos podemos ser as Damas e os Cavaleiros da Sagrada Ordem. Todos podemos ser idealistas se sonharmos nos iluminar com esse resplendor inextinguível.

 BIBLIOGRAFIA
1.     CHEVALIER, Jean e Alain Cheerbrant. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 2008.
2.     DIVERSOS, autores. Mitologia – Mitos e Lendas de todo o Mundo. Global Book Publishing. Austrália. 2003.
3.     ESCHENBACH, Wolfram Von. Parsifal. Brasília. Thot Livraria e Editora Esotérica. 1989.
4.     GERENSTADT, H. Avalon e o Graal e Outros Mistérios Arturianos. São Paulo. Editora Masdras. 2002.
5.     JUNG, Carl G.. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2008.

6.     TABOADA, Francisco Andrés. Excalibur e os Mistérios Iniciáticos. Belo Horizonte. Edições Nova Acrópole. 2001.
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