quarta-feira, 2 de abril de 2014

Como Lidar com as Frustrações - Casa de Euterpe



Introdução
Este texto está baseado na obra de Alain de Botton “As Consolações da Filosofia”.
1.     Pequena biografia
Lucius Annaeus Seneca era filho de um grande orador - Annaeus Seneca, o Velho - e foi educado em Roma, onde estudou retórica e filosofia. Tornou-se famoso como advogado. Foi membro do senado romano e posteriormente nomeado questor, magistrado da justiça criminal.
Sêneca despertou a inveja do imperador Calígula, que tentou assassiná-lo. Em 41 d.C., envolveu-se num processo por suas relações com Julia Livila, uma sobrinha do imperador Cláudio. Acusado de adultério, foi exilado e partiu para a Córsega, onde viveu até 49 d.C.
Durante esse período, escreveu suas famosas "consolações", textos dirigidos a um interlocutor com o propósito de confortar. Na "Consolação a Márcia", dirige-se a uma mulher que acabou de perder um filho, tecendo considerações sobre a inconstância da sorte e a fragilidade da vida humana. Em "Consolação a Hélvia", dirige-se à própria mãe, consolando-a pelo sofrimento de ver seu filho no exílio.
Em 49 d.C., Messalina foi condenada à morte. O imperador Cláudio casou-se com Agripina, que convidou Sêneca para assumir a educação de seu filho Nero.
Nero tornou-se imperador em 54 d.C. e Sêneca assumiu as funções de conselheiro até 62 d.C. Em Roma, Sêneca redigiu dois de seus tratados, "Sobre a Brevidade da Vida" e "Sobre o ócio".
Afastado da vida pública, sofreu perseguição do imperador Nero. Acusado de participar da Conspiração de Piso, que teria planejado o assassinato de Nero, foi condenado ao suicídio.
Ao tomarem conhecimento da ordem de Nero, os amigos de Sêneca empalideceram e começaram a chorar. No entanto, segundo relato de Tácito, o filósofo permaneceu impassível e tentou conter as lágrimas dos que o cercavam e reavivar-lhes a coragem:
Onde está sua filosofia, perguntou ele, e o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante a iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos vêm incentivando uns aos outros a manter? Certamente ninguém ignorava que Nero era cruel!, acrescentou. Depois de matar a mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e preceptor.
Em abril de 65 d.C., Sêneca cortou os pulsos, na presença de amigos, no que foi seguido por sua esposa, Pompéia Paulina.
2.     Consolação para a frustração
Com sua morte, Sêneca ajudou a criar, juntamente com outros pensadores estoicos, uma associação duradoura entre o significado exato da palavra “filosófico” e uma abordagem comedida e serena à vicissitude.
Desde o começo, ele concebera a filosofia como disciplina para ajudar o ser humano a superar os conflitos entre seus desejos e a realidade.
Durante toda a sua vida, Sêneca enfrentou e testemunhou calamidades: Pompéia foi atingida por terremotos; Roma e seu império foram subjugados por Nero e por seu predecessor Calígula; teve tuberculose; foi exilado por oito anos na ilha de Córsega e foi condenado ao suicídio. Sêneca sabia que fora capaz de suportar todos os contratempos:
Devo minha vida à [filosofia], e esta é a menor de minhas obrigações de gratidão para com ela.
A experiência o levou a formar um repertório completo de frustrações, seu intelecto, a uma série de respostas a elas.
3.     Um repertório seneciano de frustrações
Embora o terreno da frustração possa ser vasto – de um dedo do pé machucado à morte prematura -, no âmago de cada frustração repousa uma estrutura fundamental: o choque entre um desejo e uma realidade imutável.
 Os choques têm início na mais tenra infância, com a descoberta de que as fontes de nossa satisfação estão além do nosso controle e que o mundo não se ajusta aos nossos desejos de forma confiável.
E, no entanto, para Sêneca, só atingimos a sabedoria plena quando aprendemos a não agravar a inflexibilidade do mundo com nossas reações, nossos ataques de raiva, autopiedade, ansiedade, amargura, hipocrisia e paranoia.
Uma única tese permeia toda sua obra: suportamos melhor as frustrações para as quais nos preparamos e que compreendemos e somos atingidos principalmente por aquelas que menos esperamos e não conseguimos entender. A filosofia deve nos harmonizar com as reais dimensões da realidade, e desta forma nos poupar, se não da própria frustração, da panóplia de emoções que a acompanham.
Sua tarefa é nos preparar para que nossos desejos batam com a maior suavidade possível contra o muro inflexível da realidade.
Raiva
A mais infantil das colisões. Não conseguimos encontrar o controle remoto ou as chaves, a estrada está engarrafada, o restaurante cheio – e nós batemos portas, destruímos plantas e esbravejamos.
O filósofo considerava atitudes desse tipo uma espécie de loucura:
Não existe caminho mais rápido para a insanidade. Muitas [pessoas irritadas] atraem a morte para seus filhos, a pobreza para si a ruína para seus lares, negando que estão encolerizadas, da mesma forma que os loucos negam a própria insanidade. Inimigos de seus amigos mais chegados... indiferentes às lei...agem pela força. O maior de todos os males apodera-se deles, o mal que supera todos os vícios.
Em momentos mais calmos, o homem encolerizado retrata-se e explica que foi vencido por um sentimento mais forte que ele, ou seja, mais forte que a razão. “Ele”, seu lado racional, não pretendia insultar ninguém e lamenta os impropérios; “ele” perdeu o controle para forças obscuras. É desta forma que os raivosos apelam para uma concepção predominante da mente segundo a qual a faculdade de raciocínio, sede do verdadeiro eu, é descrita como ocasionalmente assaltada por sentimentos passionais que a razão, por não reconhecê-los, não pode ser considerada responsável por eles.
Esta explicação opõe-se à visão que Sêneca tinha da mente, para quem a raiva não resulta de uma manifestação incontrolável de paixões e sim de um erro fundamental (e corrigível de raciocínio). A razão sempre governa nossos atos, admitiu ele: se recebemos um jato de água fria, só nos resta tremer; se alguém estala os dedos diante de nossos olhos, somos forçados a piscar. Mas a ira não pertence à categoria dos movimentos físicos involuntários, ela só pode ser deflagrada com o apoio de determinadas ideias racionalmente sustentadas: se pudermos mudar as ideias, mudaremos nossa propensão à ira.
E, na opinião de Sêneca, o que nos deixa irritados são os conceitos perigosamente otimistas sobre o mundo e as pessoas (expectativas – apontamento meu).
O grau de reação negativa diante da frustração é criticamente determinado pelo que consideramos normal. Podemos nos sentir frustrados porque está chovendo, mas nossa familiaridade com a chuva torna impossível que reajamos com raiva. Nossas frustrações são controladas pelo entendimento que temos do que se pode esperar do mundo, por nossa experiência do que é normal esperar. Não somos dominados pela ira sempre que nos é negado um objeto que desejamos, a menos que acreditemos que temos direito a ele. Nossos acessos de fúria mais violentos são desencadeados por acontecimentos que violam nossas noções das regras fundamentais da existência.
Com relação ao dinheiro, era comum levar-se uma vida bastante confortável na Roma antiga. Muitos amigos de Sêneca possuíam amplas residências na capital e vilas no campo. Havia termas, jardins com colunatas, chafarizes, mosaicos, afrescos e sofás requintados. Havia séquitos de escravos para preparar refeições, cuidar das crianças e manter os jardins.
No entanto, parecia haver um nível incomum de fúria entre os privilegiados. “A prosperidade favorece o mau humor”, escreveu Sêneca, depois de observar seus amigos abastados reclamarem a sua volta porque a vida não havia corrido conforme imaginavam.
Sêneca conhecia um homem rico chamado Védio Póllio, amigo do imperador Augusto, cujo escravo certa vez deixou cair uma bandeja com copos de cristal durante uma festa. Védio detestava o som do vidro se quebrando e ficou tão enfurecido que ordenou que o escravo fosse atirado em um fosso cheio de lampreias.
Acessos de fúria como esse sempre têm uma explicação. Védio Póllio ficou irritado por uma razão identificável: ele acredita em um mundo no qual copos não quebram em festas. Gritamos quando não conseguimos encontrar o controle remoto por causa de uma crença implícita em um mundo no qual controle remotos não se perdem. A fúria é causada por uma convicção, quase cômica em suas origens otimistas (por mais trágicas que sejam suas consequências), de que uma determinada frustração não consta do contrato da vida.
Devíamos ser mais cuidadosos. Sêneca tentou ajustar a escala de nossas expectativas de tal maneira que não precisemos vociferar tão alto quando elas são frustradas:
Quando o jantar atrasa alguns minutos:
Para que virar a mesa de pernas para o ar? Espatifar os copos? Bater com a cabeça contra pilastras?
Quando um zumbido nos incomoda:
Por que uma mosca precisa deixar você furioso, se ninguém se deu ao trabalho de espantá-la, ou por que irritar-se com um cachorro que atravessou seu caminho ou com uma chave que em empregado descuidado deixou cair?
Quando alguma coisa perturba a paz da sala de jantar:
Para que levantar-se e pegar um chicote no meio da refeição, apenas porque os escravos estão conversando?
Devemos nos reconciliar com a imperfectibilidade necessária da existência:
É surpreendente que o iníquo cometa iniquidades, ou é inédito o fato de seu inimigo tentar prejudicá-lo ou seu amigo aborrecê-lo, ou seu filho cometer erros ou seu empregado comportar-se mal?
Deixaremos de nos irritar quando deixarmos de nutrir tantas expectativas.
Choque
Um avião da Swissair, com 229 pessoas a bordo, deixa Nova York com destino a Genebra, para mais um voo regular. Cinquenta minutos depois de sair do aeroporto J. F. Kennedy, enquanto as comissárias deslizam seus carrinhos pelos corredores do McDonald Douglas MD-11, o comandante comunica fumaça na cabine. Dez minutos depois, o avião não é mais captado pelo radar. O aparelho gigantesco, cujas asas medem 52 metro de comprimento, espatifa-se nas águas plácidas do Atlântico, perto de Halifax, na Nova Escócia, matando todos os passageiros e tripulantes. As equipes de resgate comentam sobre as dificuldades de se identificar o que foi, há apenas algumas horas, seres humanos com histórias de vida e planos para o futuro. Malas são encontradas boiando no mar.
Se não insistimos no risco de uma tragédia súbita e pagamos um preço por nossa inocência, é porque a realidade abrange duas características cruelmente nebulosas: de um lado, a continuidade e a confiabilidade subsistem através das gerações; de outro, cataclismos imprevistos. Vemo-nos divididos entre um convite razoável para crer que amanhã será praticamente igual a hoje e a possibilidade de sermos surpreendidos por um acontecimento aterrador depois do qual nada será como antes. Como recebemos incentivos muito fortes para negligenciar a segunda característica, Sêneca invocou a deusa.
Ela costumava ser encontrada no verso de muitas moedas romanas, segurando uma cornucópia em uma das mãos e um leme na outra. Era bonita, geralmente vestia uma túnica vaporosa e ostentava um sorriso recatado. Seu nome era Fortuna. A cornucópia era um símbolo de seu poder de conceder favores: o leme, um símbolo de seu poder mais sinistro de mudar o destino. Ela era capaz de distribuir presentes e, em seguida, com rapidez assustadora, mudar a direção do leme, mantendo seu sorriso imperturbável, observando-nos morrer engasgados com uma espinha de peixe ou desaparecer em um deslizamento de terra.
Como somos atingidos principalmente pelo que não esperamos e como devemos estar à espera de tudo (“nada existe que a Fortuna que não ouse fazer”), devemos, segundo nos sugeriu Sêneca, ter sempre em mente a possibilidade de uma tragédia. Ninguém deve se aventurar em uma viagem de carro ou descer uma escada ou despedir-se de um amigo sem uma consciência de possibilidades fatais, que Sêneca teria desejado que não fosse nem horripilante nem desnecessariamente dramática.
Eis algumas reflexões senecianas acerca dos choques aos quais estamos expostos:
Nada deve ser inesperado para nós. Nossas mentes devem projetar-se no tempo para prever todos os problemas e devemos considerar não o que costuma acontecer, mas o que pode acontecer.
Você diz: “Não pensei que isto fosse acontecer.” Acha que existe alguma coisa que não irá acontecer, quando você sabe que é possível que ela aconteça, quando você vê que ela já aconteceu... ?
Nunca prevemos o infortúnio até que ele nos bate à porta...
Nenhuma promessa lhe foi feita para esta noite – não, exagerei em minha sugestão -, nenhuma promessa lhe foi feita até mesmo para esta hora.
Existe uma inocência perigosa na expectativa de um futuro formulado com base na probabilidade. Qualquer acidente ao qual um ser humano está sujeito, por mais raro que seja, por mais distante no tempo, é uma possibilidade para a qual devemos estar preparados.
Porque os longos períodos de benevolência da Fortuna nos seduzem à apatia, Sêneca nos pede que dediquemos alguns minutos diários para nos lembrarmos de sua existência. Não sabemos o que acontecerá em seguida: devemos estar à espera de alguma coisa. Ao amanhecer, devemos realizar o que Sêneca denominou de praemeditatio, uma meditação antecipada de todos os sofrimentos da alma e do corpo aos quais a deusa pode vir a nos submeter.
Um praemeditatio de Sêneca
[Os sábios} iniciarão o dia com o pensamento...
Nenhuma dádiva da Fortuna nos pertence de fato.
Nada, seja público ou privado, é estável; os destinos dos homens, assim como os das cidades, estão sujeitos a um turbilhão.
Qualquer edificação que tenha levado longos anos para ser erguida, à custa de grande sacrifício e graças aos préstimos dos deuses, pode dispersar-se ou desfazer-se em um único dia. Não, aquele que disse “um dia” exagerou, concedendo um prazo longo demais para um revés repentino; uma hora, um átimo, é o bastante para promover a queda dos impérios.
Se a maioria dos filósofos não julga necessário adotar esse estilo é porque, se um argumento é lógico, o estilo em que ele é apresentado ao leitor não irá determinar sua eficácia. Sêneca acreditava que a mente humana funcionava de outra maneira. Os argumentos são como enguias: por mais lógicos que sejam, podem deslizar e escapar ao fraco entendimento de um cérebro, a menos que ali seja fixado pela imaginação retórica e pelo estilo. Necessitamos de metáforas para extrair a noção exata do que não pode ser visto ou tocado; caso contrário, esqueceremos.
Apesar de suas raízes religiosas e não filosóficas, a deusa Fortuna funcionava como uma imagem perfeita para que tivéssemos sempre em mente nossa constante exposição aos acidentes e, para maior tranquilidade, concentrássemos uma variedade de ameaças em um único inimigo.
Ansiedade
Um estado de agitação motivado por uma situação problemática, para a qual, ao mesmo tempo, se deseja a melhor solução e se teme que o pior venha acontecer. Em geral deixa os envolvidos desanimados e incapazes de encontrar prazer em atividades supostamente agradáveis, sejam elas culturais, sexuais ou sociais.
Mesmo quando podem desfrutar de cenários sublimes, os ansiosos continuarão preocupados por antever em seu íntimo a ruína e podem preferir que os deixem sozinhos em um quarto.
A forma tradicional de se consolar alguém é tentar tranquilizá-lo. Explica-se aos ansiosos que seus medos são exagerados, assegurando-lhes que os acontecimentos irão tomar o rumo desejado.
Mas o encorajamento pode ser o mais cruel dos antídotos para a ansiedade. Nossas previsões otimistas deixam a vítima da ansiedade despreparada para o pior, e nós podemos, inadvertidamente, sugerir que, no caso de suceder o pior, as consequências serão desastrosas. Sêneca foi mais sábio ao nos pedir que considerássemos o fato de que as coisas ruins irão talvez acontecer, mas acrescentou que é improvável serem tão ruins quanto tememos que sejam.
Em fevereiro de 63, Lucílio, amigo de Sêneca, que trabalha como funcionário público na Sicília, foi citado em um processo e estava ameaçado de perder definitivamente o cargo e a reputação. Ele escreveu a Sêneca: “você, na certa, espera que eu o aconselhe a aguardar um resultado favorável e se deixe seduzir pela esperança”, respondeu o filósofo, mas “vou conduzi-lo à paz de espírito por um outro caminho” – que culminou no seguinte conselho:
Se você deseja acabar com todas as preocupações, parta do princípio de que aquilo que teme que possa acontecer certamente irá acontecer.
Sêneca tentou dizer ao amigo que, uma vez que encaramos racionalmente as consequências de um desejo não realizado, teremos grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as ansiedades que geraram, Lucílio tinha motivos para se deixar levar pela tristeza, mas não pela histeria:
Se você perder este caso, que outra coisa mais grave pode lhe acontecer, além de ser exilado ou preso?... “Eu posso me tornar um homem pobre”; então, serei mais um entre muitos. “Posso ser exilado”; neste caso, irei considerar-me como um nativo do lugar para o qual fui mandado. “Podem me acorrentar em uma prisão.” E daí? Estou eu livre de grilhões neste momento?
A prisão e o exílio eram situações ruins, mas – e esta era a base da sustentação da argumentação – não eram tão ruins quanto o desesperado Lucílio poderia ter temido, antes de analisar cuidadosamente sua ansiedade.
Deduz-se, portanto, que os indivíduos abastados que temem perder suas fortunas não devem nunca ser tranquilizados com observações a respeito da improbabilidade de sua ruína. Eles devem passar alguns dias em um quarto frio e ser submetidos a uma dieta de sopa rala e pão dormido. Sêneca extraiu este conselho de um de seus filósofos preferidos:
O grande mestre hedonista Epicuro costumava observar determinados períodos de privações, em que a avareza sobrepujava o desejo de satisfazer a fome, com o objetivo de verificar... se valia a pena empenhar-se em tirar algum proveito da escassez.
Sêneca garantia que os ricos logo chegariam a uma importante conclusão:
Esta é realmente a situação que eu temia tanto? “Suporte [a pobreza] durante três ou quatro dias, ou mais... e eu lhe garanto... você irá compreender que a paz de espírito de um homem não depende da Fortuna.
Muitos romanos consideravam surpreendente, e até mesmo ridículo, descobrir que o filósofo que dava tais conselhos vivia em um luxo considerável. Quando contava quarenta e poucos anos, a carreira política de Sêneca já havia lhe permitido acumular dinheiro suficiente para adquirir vilas e fazendas. Ele desfrutava da boa mesa e adquirira um apego a móveis caros, especialmente mesas de cedro com pés de marfim.
Insinuações de que havia algo de pouco filosófico em seu comportamento o deixavam indignado:
Parem de tentar impedir que os filósofos tenham dinheiro; ninguém condenou à pobreza a sabedoria.
E acrescentava:
Desprezarei tudo que pertença ao domínio da Fortuna, mas se me for dado escolher, irei preferir a melhor parte.
Não se tratava de hipocrisia. O estoicismo não recomenda a pobreza; recomenda que nós não a temamos ou a desprezemos. A doutrina considera a riqueza, segundo uma formulação técnica, um productum, alguma coisa preferida – nem essencial, nem um crime. Os estoicos podem viver com as mesmas dádivas que a Fortuna concede aos tolos. Suas casas podem ser luxuosas e sua mobília bela. Apenas um único detalhe os qualifica como sábios:. como reagem à pobreza súbita. Podem abandonar a casa e a criadagem sem ódio ou desespero.
Afirmava que o sábio deve estar preparado para abrir mão de todas as concessões da Fortuna, sem se deixar perturbar.
O sábio não tem nada a perder. Tudo que ele possui está investido nele mesmo.
O sábio é autossuficiente... se ele perde uma das mãos devido a uma doença ou à guerra ou se algum acidente o privar de um dos olhos ou mesmo de ambos, ele se contentará com o que restar.
Com isso, Sêneca queria dizer que não devemos ficar felizes em perder um olho, mas é possível continuar a viver se isso acontecer. O mundo ideal de olhos e mãos é um productum. Vejamos mais dois exemplos:
O sábio não desprezará a si próprio se tiver a estatura de um anão, embora deseje ser alto.
O sábio é autossuficiente no que se refere a viver sem a amizade de ninguém, mas isto não significa que ele deseje esta situação.
A sabedoria de Sêneca não se limitava apenas à teoria. Exilado na ilha de Córsega, ele se viu abruptamente privado de todos os luxos. As condições de vida na ilha deviam ter formado um doloroso contraste com a vida em Roma. Mas, em uma carta a sua mãe, o ex-estadista rico explicou que havia conseguido adaptar-se às circunstâncias, graças a anos de meditação matinal e aos períodos de sopa rala:
Nunca confiei na Fortuna, mesmo quando ela parecia estar oferecendo paz. Todas aquelas bênçãos que generosamente derramou sobre mim – riquezas, cargos, prestigio – releguei de tal maneira que ela pudesse retomá-las sem me causar aflições. Mantive sempre grande distância entre mim e seus favores. Ela apenas tirou-me o que havia concedido, portanto nada arrancou de mim.
Sensação de se estar sendo alvo de zombaria
Objetos inanimados
Quando um lápis rola da mesa e cai ou uma gaveta emperra e não abre, tem-se a impressão de que os objetos estão agindo para causar frustração em que tenta utilizá-los. A frustração causada pelos objetos advém da desconfiança de que se é vítima de seu desprezo. Ao agirem desta forma, tentam mostrar que não valorizam o status ou o talento dos quais aquele ser humano se orgulha e pelos quais é admirado.
 Seres vivos
Um sofrimento semelhante é despertado pela sensação de que outras pessoas tentam, em silêncio, ridicularizar nossa personalidade.
Depois de registrar-me em um hotel na Suécia, fui acompanhado até o quarto a mim destinado por um empregado que se ofereceu para carregar minha bagagem. “Está muito pesada para um homem como o senhor”, disse ele com um sorriso nos lábio, enfatizando a palavra “homem” no intuito de insinuar o oposto. Ele tinha cabelos de um louro nórdico (talvez se tratasse de um esquiador ou de um caçador de alces; numa época remota deveria ter sido um guerreiro) e trazia um ar decidido. “Monsieur vai gostar muito do quarto”, acrescentou. Não entendi bem o motivo de ele ter me chamado de “Monsieur”, sabendo que eu havia chegado de Londres, e o uso de “vai gostar” soou como uma ordem. A sugestão tornou-se totalmente incongruente, e revelava uma conspiração quando o quarto revelou o barulho do trânsito, uma televisão quebrada e um chuveiro com defeito.
Situações como a descrita acima podem despertar a ira, mesmo em pessoas tímidas e pacificas, que podem subitamente desatar a gritar e cometer atos de crueldade – até assassinato.
Sempre que algo nos magoa, somos tentados a acreditar que o que nos magoou teve a intenção de fazê-lo. É tentador usar frases em que substituímos a conjunção aditiva “e” por “a fim de”; em vez de pensarmos que “o lápis caiu da mesa e agora estou aborrecido”, concluímos que “o lápis caiu da mesa a fim de me aborrecer”.
Sêneca colecionava exemplos desses sentimentos de perseguição por objetos inanimados. A obra do historiador grego Heródoto, intitulada História, fornece um desses exemplos. Ciro, rei e fundador do grande Império Persa, possuía um belo cavalo branco que ele sempre montava em combate. Na primavera de 539 a. C., o rei Ciro declarou guerra aos assírios, na esperança de expandir seu território, e partiu com um exercito para sua capital, a Babilônia, às margens do rio Eufrates. As tropas avançavam sem problemas, até atingirem as margens do rio Gyndes, que iniciava seu curso nas montanhas da na Mantinéia e desembocava no rio Tigre. Naquela época do ano suas águas estavam revoltas, escuras e, devido às tempestades de inverno, mais profundas. Os generais do rei aconselharam esperar, mas Ciro não se deixou intimidar e ordenou a travessia imediata. Enquanto as embarcações eram preparadas, o cavalo de Ciro escapuliu sem que ele percebesse e tentou nadar até a outra margem. A correnteza apanhou o animal, derrubando-o e arrastando-o rio abaixo para a morte.
Ciro ficou lívido. O rio havia ousado dar cabo de seu sagrado cavalo branco, o cavalo do guerreiro que havia derrubado Creso e aterrorizado os gregos. Ele vociferou, praguejou e, do alto de sua fúria, decidiu vingar-se do Gyndes por sua insolência. Jurou que puniria o rio, tornando-o tão insignificante que, no futuro, uma mulher seria capaz de atravessá-lo sem molhar sequer os joelhos.
Deixando de lado os planos de expansão de seu império, Ciro dividiu seu exército em duas partes, demarcou 180 pequenos canais em cada margem do rio em direções diferentes e ordenou que seus homens começassem a cavar. A obra durou todo o verão e os soldados, com o moral abalado, viram ruir toda a esperança de derrotar de imediato os assírios. Quando terminaram, o outrora caudaloso Gyndes estava dividido em 360 canais tão débeis que, boquiabertas, as mulheres do local conseguiam passar de um lado para o outro sem precisar erguer as saias. Com sua ira aplacada, o rei a Pérsia ordenou que as exauridas tropas retomassem a marcha até a Babilônia.
Sêneca também reunia exemplos semelhantes de sentimentos de perseguição provocados por seres vivos. Um desses exemplos dizia respeito a Gnaeus Piso, governador romano da Síria, um general corajoso mas um espírito atribulado. Quando um soldado retornou de um período de licença sem o amigo que o havia acompanhado e afirmou que não fazia ideia de onde ele poderia estar, Piso julgou que o soldado estava mentindo; ele havia matado o amigo e teria de pagar com sua própria vida.
O condenado jurou que não havia assassinado ninguém e implorou que fosse aberto um inquérito, mas Piso não acreditou e ordenou que o soldado fosse escoltado para sua execução sem demora.
No momento em que o centurião incumbido da execução preparava-se para decepar a cabeça do soldado, o amigo desaparecido surgiu na entrada do acampamento militar. A tropa interrompeu em um aplauso espontâneo e, aliviado, o centurião suspendeu a execução.
Piso não recebeu a novidade com o mesmo entusiasmo. Ele interpretou os gritos de euforia como uma demonstração de deboche diante do seu julgamento. O sangue subiu-lhe à cabeça e sua fúria era tanta que ele chamou os guardas e ordenou a execução de ambos, ou seja, do soldado que não havia assassinado ninguém e daquele que não havia sido assassinado. E porque àquela altura se sentia muito perseguido, o general, por medida de precaução, exigiu que o centurião também fosse executado.
O governador da Síria interpretou os aplausos de seus soldados como um desejo de minar sua autoridade e questionar sua capacidade de julgamento. Ciro também havia interpretado as águas turbulentas de um rio como assassinas de seu cavalo.
Sêneca tinha uma explicação para erros de julgamento: eles repousavam sobre uma “certa mesquinhez de espírito” em homens como Ciro e Piso. A presteza com que anteviam um insulto escondia um temor do ridículo. Quando suspeitamos ser alvos ideais de ofensas, nos apressamos em acreditar que alguém, ou alguma coisa, está sempre a postos para nos ferir:
“Aquele não me recebeu hoje, mas deu atenção a outras pessoas”; “ele me contradisse com arrogância ou riu abertamente sempre que tentei expor um ponto de vista”; “ele me fez sentar ao pé da mesa, em vez de me ceder o lugar de honra”.
Estes podem ser motivos inocentes. Ele não me recebeu hoje, porque prefere conversar comigo na semana que vem. Tive a impressão de que ele estava rindo de mim, mas, na verdade, era um tique nervoso. Não são estas as primeiras explicações que nos ocorrem quando somos mesquinhos de espírito.
Portanto, devemos nos empenhar em erguer um muro em volta de nossas impressões iniciais e nos recusar a agir com base em seu julgamento precipitado. Devemos nos perguntar se a pessoa que ainda não respondeu a uma carta que lhe enviamos está necessariamente sendo tão morosa no intuito de nos aborrecer e se as chaves que sumiram foram necessariamente roubadas:
[O sábio não] atribui a cada acontecimento interpretações errôneas.
E a razão pela qual o homem sábio não adota este tipo de comportamento foi explicada de maneira indireta por Sêneca em uma carta enviada a Lucílio, no mesmo dia em que leu por acaso uma frase em um dos livros do filósofo Hecato:
Eu lhe direi o que me agradou hoje [em seus escritos]; veja o seguinte trecho: “Que progressos, você me pergunta, há consegui? Comecei a ser amigo de mim mesmo.” Isto foi de fato um grande benefício... esteja certo de que este homem é amigo de toda a humanidade.
Existe um método fácil de medir o nível de mesquinhez ou benevolência com relação a si mesmo: deveríamos refletir sobre como reagimos ao barulho. Sêneca morava perto de um ginásio. As paredes eram finas e a balbúrdia era constante. Ele descreveu o problema para Lucílio:
Imagine que variedade de barulhos reverbera em meus ouvidos!... Por exemplo, quando um determinado cavalheiro está muito empenhado em exercitar-se e começa a levantar pesos, ele precisa executar, ou fingir que executa, um grande esforço. Eu, então, o ouço grunhir; em seguida, na tentativa de recuperar o fôlego, ele começa a resfolegar e deixa escapar sibilos agudos. Quando minha atenção se volta para um outro sujeito menos ativo, que se contenta com uma massagem comum e barata, posso ouvir o som abafado da mão de alguém, que lhe dá socos nos ombros... Acrescente-se a isto a prisão ocasional de um baderneiro ou um punguista diante da minha porta. Ou então, a algazarra de um vizinho que aprecia o som da própria voz no banheiro... ou a barulheira infernal dos vendedores ambulantes, como o homem que oferece salsinhas ou o confeiteiro, o vendedor de panquecas com seus gritos variados e quantos mais que percorrem as ruas apregoando suas mercadorias em altos brados.
Aquele que não é benevolente consigo próprio encontra grande dificuldade em imaginar que o vendedor de panquecas está gritando para vender panquecas. O operário que está trabalhando no andar térreo de um hotel em Roma talvez esteja fingindo consertar a parede, mas sua intenção real é irritar o homem que tenta ler um livro em um quarto de uma dos andares mais altos.
Interpretação mesquinha: o operário está dando golpes de martelo na parede para me chatear.
Interpretação benevolente: o operário está dando golpes de martelo na parede e eu estou chateado.
Para nos acalmarmos em uma rua movimentada, devemos confiar que as pessoas que provocam barulhos nada sabem a nosso respeito. Devemos erguer uma barreira entre o barulho exterior e a sensação interior de que somos merecedores de punições. Não devemos transportar interpretações pessimistas das motivações alheias para cenários onde não há lugar para elas. A partir daí, o barulho jamais será agradável, mas ele não precisa nos enfurecer tanto:
Deixemos o caos reinar por toda parte, desde que não perturbe nosso equilíbrio interior.
4.     As lições de Sêneca
Naturalmente, haveria poucas realizações humanas se aceitássemos todas as frustrações. A força motriz de nossa engenhosidade está na pergunta “É necessário que seja assim?”, que gera reformas políticas, desenvolvimento científico, melhoria dos relacionamentos e melhores livros. Os romanos eram mestres na arte de rechaçar frustrações. Odiavam o frio do inverno e desenvolveram um sistema de calefação sob os assoalhos. Como não desejavam caminhar por estradas lamacentas, decidiram pavimentá-las.
Infelizmente é difícil reter as faculdades mentais que buscam incessantemente alternativas. Elas continuam a promover mudanças e trazer progressos, mesmo quando não existem esperanças de se alterar a realidade. Para gerar energia que nos impele a agir, somos lembrados por choques de desconforto – ansiedade, dor, ultraje, ofensa – de que a realidade não é como desejamos que ela fosse. No entanto, estes choques não teriam propósito se não conseguíssemos melhores efeitos, se perdêssemos nossa paz de espírito e não conseguíssemos desviar o curso dos rios; segundo Sêneca, é por este motivo que a sabedoria está em distinguir corretamente as situações em que estamos livres para moldar a realidade de acordo com nossos desejos daquelas que nos obrigam a aceitar o imutável com tranquilidade.
Os estoicos lançavam mão de uma outra imagem para evocar nossa condição de criaturas fortuitamente capazes de efetuar mudanças, apesar de sujeitas às necessidades externas. Somos como cães amarrados a uma carroça que, a qualquer instante, pode se colocar em movimento. O comprimento da nossa trela é suficiente para permitir uma certa liberdade de movimento, mas não nos concede a autonomia necessária para vagarmos a nosso bel-prazer.
A metáfora formulada pelos filósofos Zenão de Cício e Crisipo e relatada pelo sacerdote romano Hipólito:
Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça o obrigará a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo acontece com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.
Naturalmente, um cão supõe que é livre para ir onde bem entender. Mas, como sugere a metáfora de Zenão e Crisipo, se seus movimentos estão tolhidos é melhor trotar para acompanhar a carroça do que ser arrastado e estrangulado por ela. Embora o primeiro impulso do animal talvez seja o de lutar contra a guinada repentina do veículo que o obriga a tomar uma direção imprevista, seu sofrimento só dura enquanto durar sua resistência.
Assim Sêneca se posicionou acerca do assunto:
Ao lutar contra o laço, o animal o aperta mais... qualquer cabresto apertado irá machucar menos o animal se ele se mover com ele do que se lutar contrai ele. Somente a capacidade de resistência e a submissão à necessidade proporcionam o alívio para o que é esmagador. 
Para reduzir a violência de nossa insubordinação contra acontecimentos que tomam rumos opostos ao que desejávamos, devemos refletir que também nós temos sempre um cabresto em volta do pescoço. O sábio aprenderá a identificar de imediato o que é necessário e o seguirá, em vez de deixar-se exaurir em protesto. Quando um homem sábio é informado de que sua mala se perdeu em trânsito, ele precisará de poucos segundos para resignar-se. Sêneca relatou de que forma o fundador do estoicismo se comportou quando soube que havia perdido todos os seus pertences:
Ao ser avisado sobre um naufrágio e ser alertado para o fato de que sua bagagem havia afundado, Zenão comentou: “A Fortuna me desafia a ser um filósofo menos sobrecarregado.”
Isso pode soar como uma receita para a passividade e a placidez, um incentivo à resignação diante de frustrações que poderiam ter sido vencidas. Pode nos levar a um desanimo tal que nos impeça de construir até mesmo um aqueduto de proporções diminutas. Mas a argumentação de Sêneca é mais sutil. Existe o mesmo grau de irracionalidade em se aceitar como necessário algo que não é necessário e em se rebelar contra algo que é necessário. Podemos, com a mesma facilidade, cometer o mesmo erro, ao aceitarmos o desnecessário e negarmos o possível, e negarmos o necessário e desejarmos o impossível. Cabe à capacidade de raciocínio estabelecer a distinção.
Não importa que semelhanças possam existir entre nós e um cão atrelado, nós possuímos uma vantagem crucial: podemos raciocinar e cão não. O animal sequer percebe que foi amarrado a uma trela e nem entende a relação entre as guinadas da carroça e a dor que sente no pescoço. Ele se sentirá confuso com as mudanças de direção e será difícil para ele calcular a trajetória da carroça, portanto sofrerá puxões constantes e dolorosos. Mas a razão nos capacita a teorizar com precisão sobre a rota de nossa carroça e isto nos oferece uma oportunidade, única entre os seres vivos, de aumentar nosso senso de liberdade ao assegurar uma boa folga entre nós e a necessidade. A razão nos permite determinar quando nossos desejos estão em conflito irrevogável com a realidade e nos desafia a não sentir revolta ou amargura, e sim a nos submetermos de bom grado às necessidades. Talvez sejamos impotentes para alterar determinados acontecimentos, mas permanecemos livres para escolher que atitude tomar em relação a eles, e em nossa aceitação espontânea da necessidade encontramos uma liberdade característica.
5.     Bibliografia
BOTTON, de Alain. As Consolações da Filosofia. Editora Rocco. Rio de Janeiro

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