terça-feira, 1 de abril de 2014

O Herói Cotidiano - Casa de Euterpe




1. Introdução

Conforme enfatiza Carol S. Pearson em O Despertar do Herói Interior, o paradoxo da vida moderna é que, ao mesmo tempo em que estamos vivendo como nunca se viveu antes, e, assim, recriando diariamente o nosso mundo, nossas atividades frequentemente nos parecem infundadas e vazias. Para transcender esse estado, precisamos nos sentir enraizados simultaneamente na história e na eternidade.
É por isso que o mito do herói é tão importante no mundo contemporâneo. Trata-se de um mito imemorial que nos une a pessoas de todas as épocas e lugares. Ele fala em saltar intrepidamente através dos limites conhecidos para enfrentar o desconhecido e ter confiança de que, quando chegar o momento, teremos os recursos necessários para enfrentar nossos dragões, descobrir nossos tesouros e retornar para transformar o reino. Ele também fala em aprendermos a ser verdadeiros com nós mesmos[1] e a viver em harmonia com os outros membros da nossa comunidade.
No mito clássico, a saúde do reino refletia a saúde do Rei ou da Rainha[2]. Quando o governante era ferido ou ameaçado, o reino transformava-se em uma terra devastada. Para resolver os problemas do reino era preciso que um herói empreendesse uma busca, encontrasse um objeto sagrado e retornasse para curar ou substituir o governante.
Nosso mundo apresenta muitos dos sintomas clássicos de um reino devastado: fome, danos ao ambiente natural, dificuldades econômicas, grande injustiças, desespero e alienação pessoais e a ameaça de guerra e aniquilamento. Nossos reinos refletem o estado de nossa alma coletiva e não apenas a de nossos líderes.
Esta é uma época da história humana em que há grande necessidade de heroísmo. A transformação do reino depende de todos nós.

2. A Jornada do Herói Mitológico

No mito clássico, o heroísmo não consiste apenas em encontrar uma nova verdade, mas também em ter coragem de agir de acordo com essa visão. A maioria das pessoas sabe que heróis matam dragões, salvam donzelas em apuros e encontram e recuperam tesouros. No final de sua jornada, chegam a um final feliz, no qual sua nova e renovada verdade manifesta-se na vida que passam a ter. Essa nova verdade, que eles trazem de volta, renova suas próprias vidas e também a vida de seus reinos e, portanto, afeta a todos os que entram em contato com eles.
O herói deixa o mundo onde está e se encaminha na direção de algo mais profundo, mais distante ou mais alto. Então surge o problema: permanecer ali, deixando o mundo ruir, ou retornar com a dádiva, tentando manter-se fiel a ela, ao mesmo tempo em que reingressa no seu mundo social. Não é uma tarefa das mais fáceis.
A saga do herói é, em essência, a história de todos nós. À primeira vista, a aventura de nossa vida pode não parecer emocionante como a dos personagens das telas e dos contos de fadas. Mas pense em quantas situações temos de matar um dragão, lutar pela sobrevivência, ou quando somos enfeitiçados por magos atraentes. Quanto tempo não ficamos encarcerados na masmorra do castelo em atividades tediosas no trabalho do dia a dia?
O caminho do herói simboliza a jornada que todo ser humano precisa empreender em direção ao que o psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) definiu como “a busca por desenvolver nossa singularidade, descobrir e explorar nossos potenciais a fim de nos tornarmos seres únicos”. Trilhar esse caminho pode durar uma vida e começa cedo.
Miticamente, essa jornada é formada por vários estágios. Veremos quais são eles.

2.1. Os Estágios da Jornada

Quer se apresente nos termos das vastas imagens, quase abismais, do Oriente, nas vigorosas narrativas dos gregos ou nas lendas majestosas da Bíblia, a aventura do herói costuma seguir o padrão de uma unidade nuclear: um afastamento do mundo, uma penetração em alguma fonte de poder e um retorno que enriquece a vida. Tais fases podem ser identificadas conforme mostramos a seguir:

2.2.1. O chamado à aventura: o inicio da jornada é a ânsia por alguma coisa que está além de nós mesmos. É a busca dessa coisa que irá nos satisfazer. A pessoa, então, parte para uma série de aventuras que ultrapassam o usual, quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir algum elixir doador da vida. Normalmente, perfaz-se um círculo, com a partida e o retorno. Esse é o motivo básico do périplo universal do herói – ele abandona determinada condição e encontra a fonte da vida, que o leva a uma condição mais rica e madura. Uma vez que o herói atenda ao chamado, inicia-se a jornada que começa com uma entronização a novos e estranhos mundos; um caminho de amadurecimento e de transformação, no qual o herói confronta-se com a possibilidade de aniquilamento ou de morte.

2.2.2. A recusa ao chamado[3]: muitos dos que ouvem o chamado relutam em empreender a jornada. Com frequência encontraremos o triste caso do chamado que não obtém resposta; pois sempre é possível desviar a atenção para outros interesses. A recusa à convocação converte a aventura em sua contraparte negativa. Aprisionado pelo tédio, pelo trabalho ou pela “cultura”, a pessoa perde o poder da ação afirmativa dotada de significado e se transforma em uma vítima a ser salva. Seu mundo florescente torna-se um deserto cheio de pedras e sua vida dá uma impressão de falta de significado.

2.2.3. O auxílio e os aliados: para aqueles que não recusaram o chamado, o primeiro encontro da jornada do herói se dá com uma figura protetora[4], que fornece ao aventureiro amuletos[5] que o projetam contra as força titânicas com que ele está prestes a deparar-se. O herói ao qual esse tipo de auxiliar aparece é, tipicamente, o herói que atendeu ao chamado. O chamado foi, na verdade, o primeiro anúncio do aparecimento do guia. O encontro com o mentor pode ser com alguém mais experiente ou com uma situação que o force a tomar a decisão.

O herói recebe, ainda, a ajuda de aliados durante a jornada. Algumas vezes, eles surgem logo no umbral e lhe oferecem amuletos protetores ou conselhos. Outras vezes, surgem em um momento de crise e contribuem com a sabedoria necessária para a solução e a transformação. É no ponto de rendição que os aliados geralmente surgem: quando o herói se dá conta de que essa jornada não se completará dentro das estruturas conhecidas. Esses aliados podem representar, além do guia, reservas de sabedoria que o herói tem armazenadas e que aprende a usar nesse momento.

2.2.4 O retorno: os aliados proporcionam os meios para a solução feliz da jornada e para a conclusão da tarefa que torna o herói verdadeiramente heróico. Todavia, esse rompimento só pode resultar da transformação do herói e da aquisição de novas habilidades. O momento em que o herói reconhece ou expressa essa percepção profunda, assinala a transposição do umbral de retorno, o regresso do mundo subterrâneo para o assim chamado mundo normal.

O herói tem a responsabilidade de trazer os símbolos da sabedoria adquirida durante a jornada de volta ao reino humano, para que a benção alcançada possa servir à renovação da comunidade, da nação, do planeta.[6] A jornada termina, então, com o regresso do herói, carregado de dádivas e de sabedoria, para junto dos que ficaram. Ele é considerado mais sábio, mais profundo. O herói que regressou não é a mesma pessoa que partiu. A jornada bem sucedida beneficia muita gente e não só o herói.
Ao voltar, o herói percebe que é governante de seu próprio reino. A jornada diz respeit o, basicamente, à metamorfose.

O conjunto final de realizações é:

· assumir total responsabilidade pela vida;
· transformar e curar a si mesmo e aos outros;
· desapegar-se do que não tem valor;
· comprometer-se com a verdade;
· adquirir a capacidade de ser alegre e espontâneo.

Essas são as recompensas da jornada.

Esse é o clássico caminho do herói mitológico. Percorreram essa trilha Hércules, Teseu, Aquiles, Heitor, Arthur, Percival, Galahad, Rama, Siegfried entre tantos outros.
Todavia, o tema dessa noite versa a respeito do herói cotidiano e não do herói mitológico. Versa acerca de cada um de nós.

3. O Caminho do Herói Cotidiano

Tendo conhecido o roteiro do herói mitológico, cabe-nos traçar o roteiro daquele herói que habita em cada um de nós: o herói cotidiano.
Herói é alguém que descobriu ou fez alguma coisa além do nível normal de realizações ou de experiências. O herói é alguém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo.
Em face dessa definição, somos todos heróis, pois diariamente temos a opção de empreender a jornada que nos leva à transformação de nós mesmos, à conquista do “reino”, que nada mais é do que nosso Ser interior. A aventura é pessoal e intransferível. Assim como na jornada do herói mitológico, muitos recusam o chamado, muitos desistem no meio do caminho, mas muitos partem para a grande aventura do conhecimento de si mesmos.
Assim quando perguntamos: por quê?, para quê?, como é possível...?, quem sou?, para onde vou?, de onde vim...? damos início à jornada do herói cotidiano. Quando decidimos investigar a respeito dessas questões, decidimos, como o Arjuna indiano, empreender a batalha de toda a humanidade pela conquista de nossa própria personalidade, de forma a alcançarmos o Divino dentro de nós.

Portanto, para o herói cotidiano a jornada pode ser assim evidenciada:

3.1. O chamado à aventura: quando resolvemos responder àquelas questões acima evidenciadas, começamos, conscientemente, a assumir que devemos construir nossa vida, nosso destino. Por meio desse incômodo interior, dessa curiosidade natural, somos chamados à aventura do herói cotidiano.
Ora, por definição, qualquer ser humano que se faz perguntas e que, quando se encontra a sós consigo mesmo, quer saber quem é, dá nascimento a um filósofo. Dessa forma, todos os seres humanos, embora não o saibam e não tenham um título, são filósofos. É a Filosofia o instrumento que nos auxilia a encontrar tais respostas.
Assim, podemos afirmar que o herói cotidiano é chamado para sua jornada por meio da Filosofia! E Filosofia é uma forma de aprender a viver. É a Arte de Viver. É a capacidade de passar pela vida sem deixar que ela nos arraste. Em vez de sermos um tronco de árvore à deriva em um rio, é a capacidade de construir uma barca com o tronco, alguns remos, e nos dirigirmos a nós mesmos através da corrente.
A Filosofia trata de desentranhar as grandes perguntas acerca do Universo e do homem, é uma ajuda importante para o ser humano como parte do Universo. É o amor à Sabedoria, move os homens e abre seus olhos ao mundo. Arranca-nos de um isolamento egoísta e faz-nos debruçar na busca e no encontro de algumas verdades úteis para nossa existência.
A Filosofia não serve para nos fazer sábios, nem para dar-nos a chave de todos os mistérios. Todavia, sabemos que nos serve para aclarar algumas incertezas, para fazer com que usemos nossa própria mente, para que não nos acomodemos somente em fazer perguntas, mas que nos atrevamos a esboçar respostas. Coloca-nos no caminho do conhecimento, pouco a pouco, sem pressa, sem ansiedade, aceitando a infinita variedade de coisas que nos preocupam e desfrutando das pequenas certezas que vamos adquirindo.
A Filosofia valoriza a vida, valoriza todos os seres vivos e faz-nos olhar o céu e a terra, para cavar no fundo da terra e para ascender à elevação do céu; para ver ao redor, para sentir, para pensar.
O filósofo, dessa forma, transforma-se no herói, pois há de ter chaves de ação para enfrentar todas as situações e as experiências.
Assim, ao ouvirmos o chamado para a jornada, cabe-nos despertar o Filósofo que levamos em nosso íntimo, aproximá-lo dos conhecimentos adequados e, sobretudo, convertê-lo em um artista, em um cientista, do complexo e do maravilhoso exercício do viver. Isso é, verdadeiramente, um ato heróico.
A Filosofia desperta o nosso guerreiro interior, que tem valor, força de vontade e espírito de vitória. Quantas vezes quisemos fazer coisas em nossas vidas e não tivemos a coragem ou a vontade para fazê-las. Quantas vezes soubemos o que fazer, mas não o fizemos porque nos faltou força, faltou-nos vontade, faltou-nos essa energia que nos faz dar o passo à frente, que não é um passo dado de qualquer jeito, pois o guerreiro interior, o herói cotidiano, conhece a arte da estratégia[7].
Essa estratégia deve ser utilizada, durante a jornada, para que venhamos a conhecer a nós mesmo. Conhecer a nós mesmos significa a conquista de nosso mais nobre castelo, a morte do mais perigoso dragão, a conquista da mais linda donzela, a saída do mais intrincado labirinto. É essa a verdadeira missão do herói, que deve ser executada com o auxilio das ferramentas tornadas disponíveis por meio da Filosofia: conhecer-se a si mesmo.

3.2. Não ouvir o chamado: reafirmamos: quantas vezes quisemos fazer coisas em nossas vidas e não tivemos a coragem ou a vontade para fazê-las. Quantas vezes soubemos o que fazer, mas não o fizemos porque nos faltou força, faltou-nos vontade, faltou-nos essa energia que nos faz dar o passo à frente. Quando agimos dessa forma, rechaçamos o chamado para a jornada, o chamado para a Filosofia, o chamado para o interior de nós mesmos.
Algumas coisas nos impedem de ouvir o chamado, de dar o passo decisivo em nossas vidas. Tais elementos não nossas limitações, expressas por nossas carências, deficiências, imperfeições. Neste momento, não discutiremos todas, mas as principais.

a) o medo[8]: o medo é um estado psicológico da alma e também um mecanismo natural que promove a elevação das defesas. O medo pintou olhos de mochos nas asas das borboletas para espantarem os pássaros que as destroem; o medo do frio inspirou os homens a confeccionarem roupas; o medo de doenças fê-lo buscar os remédios adequados. Assim, o medo é bom e construtivo.
Porém, os antigos filósofos ensinaram-nos que todo excesso é mau. Assim, a falta de medo foi concebida como temeridade, caminho seguro para a destruição. Mas o excesso de medo é ainda mais perigoso, pois não só destrói os corpos como envilece as almas, degrada-as, tira-lhes alegria e ilusão, tornando-as impotentes a todo tipo de criação e de aperfeiçoamento. O medo confunde e estupidifica. As atitudes de não-enfrentamento faz-nos estacionar no ponto em que estamos.
A covardia, ou excesso de medo, converte o ser humano em um joguete de todas as violências e injustiças, escraviza-o e humilha-o. Facilita a qualquer inimigo a sua destruição total. Rende-se culto ao medo e as novas gerações são vítimas disso, com os seus escapismos, suas drogas, seu terror pelo esforço vivificante, seu pânico ante toda forma de compromisso idealista e generoso.
Vencendo o medo, o homem pode controlar-se a si mesmo e abrir caminho entre as adversidades do mundo circundante, no campo físico, psicológico, mental e espiritual. Vencendo o medo, o homem construiu as pirâmides do Egito, o Pártenon de Atenas e de Roma; escreveu a Ilíada e a Odisseia, a Bíblia, o Bhagavad Gîtâ, a Divina Comédia e o Dom Quixote. Pintou a Capela Sistima; compôs a Tetralogia de Wagner, a 9ª Sinfonia de Beethoven; esculpiu a Pietá de Miguel Ângelo; descobriu a América e pôs os pés na Lua. Ou seja, vencendo o medo, o homem tornou-se Herói.

b) a crise: nos momentos de crise, ou seja, de mudanças, todas as coisas costumam apresentar-se instáveis; a insegurança e a dúvida estão na ordem do dia e ninguém quer arriscar grandes empreendimentos porque nunca se sabe o que virá amanhã. Nos momentos de crise, duas posições são, geralmente, assumidas: a de imobilidade e a revolucionária. Os primeiros olham o passado e entesouram recordações; os outros, olham tão somente para o futuro e rompem totalmente com o passado.
Na crise, na mudança, no centro da História, é difícil ver com clareza. Tanto os imóveis quanto os revolucionários se alienam com sua visão particular e em nada podem contribuir para uma solução harmônica.
Na crise, o herói cotidiano, o filósofo, mantém a figura geométrica do ângulo, com seus dois lados em distintas direções, mas unidos em um vértice para ter significado. O Herói sabe que a crise não é eterna; que mudança é renovação e constrói sobre o suporte das velhas e poderosas colunas do passado os belos edifícios do trabalho atual.

c) o cansaço: por que vivemos cansados? Em princípio porque são demasiadas as coisas a que temos de dar atenção em um tempo que nos parece irremediavelmente curto. Porém, como filósofos, como heróis cotidianos, se nos impõe analisar a autêntica importância daquelas muitas coisas que nos oprimem, todas merecem realmente um lugar principal? Não é possível fazer uma seleção entre as coisas que são válidas de verdade, as que o são menos e as que não o são em absoluto? O certo é que descubramos que as coisas nos atrapalham não pela sua quantidade, mas por sua intranscendência: o fazer muito que não conduz a nada, o mover-se constantemente sem saber exatamente para onde, o não ter metas definidas ou tê-las impraticáveis, também não. Assim, o homem interior morre afogado por uma absurda construção, complexa e enervante, que se supõe feita para sua própria proteção e para o desenvolvimento pessoal. Um pouco de ar e luz abrirá uma brecha para que o cansaço ceda e dê passagem a uma harmonia que levam o tempo, o espaço e a energia a atuarem em função do eterno e do essencial.

d) a opinião pública: quando a sensatez e o conhecimento desaparecem do panorama da vida cotidiana, a chamada opinião pública surge como juiz infalível de tudo o que se faz e diz. No entanto, a opinião pública não é sábia nem sensata, e não porque não tenha possibilidade de o ser. Pelo contrario, trata-se de manipular essa opinião, fazendo-a tão variável como a própria moda. Ela aparece em extremos: como crítica e como elogio. Diante disso, o importante é agir, definir-se, arriscar muitas vezes um erro, mas colocar energia humana ao serviço ativo de si mesmo, dos outros homens e, em resumo, de Deus. Se nos elogiam, bem; se não nos elogiam, bem também; e se nos criticam, igualmente bem. Do mesmo modo que nem o Sol deixa de iluminar, nem o mar deixa de bater às costas, com a mesma inexorabilidade, e mais além das meras opiniões, o homem idealista, o herói cotidiano, tem de cumprir seu Destino, dando cabimento à voz de sua velha e profunda consciência antes que às mutáveis versões temporais.

e) a inércia: a inércia é um inimigo pessoal derivado da preguiça. Quem se move com lentidão acaba parando. A preguiça leva à inércia, não-movimento de todo tipo. O herói cotidiano identifica a existência desse elemento em si mesmo e traça a estratégia para lutar contra ele.

f) o mau-humor: inimigo pessoal que lança sombras sobre tudo, o mau-humor é falta de serenidade interior, falta de aceitação própria, de visão de longo alcance. O herói cotidiano combate o mau-humor com seu antídoto: o bom humor. Esse estado de ânimo advém da convicção a respeito de que o que causa o mau-humor é cíclico, passageiro e temporal; da convicção de que o que é atemporal só pode causar felicidade, pois tais coisas estão localizadas em nossa morada Divina: o Ser.

Além dessas limitações, que não nos deixam trilhar a jornada do herói, podemos citar a crítica, a debilidade, a distração, o egoísmo, a inveja, a falta de pontualidade, a ira, a negligência, a preguiça, a rotina, a soberba e a volubilidade. Todos esses entraves e mais os comentados impedem-nos de seguirmos o caminho do herói.

3.3. O auxílio e os aliados: assim como algumas coisas fazem com que não ouçamos o chamado, para aqueles que o ouvem, auxílios e aliados sempre aparecerão. Eles virão na forma de tudo aquilo que nos impulsiona, de tudo o que nos aproxima de nós mesmos.


A tudo o que impulsiona, chamamos moral. A moral é a união de nosso potencial físico, energético, intelectual e espiritual em seus aspectos positivos, ou seja é a soma de nossas virtudes.
Dessa forma, podemos afirmar que, no caminho do herói, aquilo que vem em seu auxilio são as virtudes por ele cultivadas.
Todos os filósofos da antiguidade, seja na China, na América pré-colombiana, na Grécia, em Roma, no Tibete, na Índia ou no Egito, concordaram em representar a vida como uma guerra, todos falam do guerreiro que há em cada ser humano. Simbolicamente, conforme temos visto até o momento, a luta do guerreiro se refere ao desenvolvimento e à conquista da consciência, Assim, não podemos entrar na batalha da vida sem armas e sem saber como lutar.

As virtudes são nossas armas. É preciso que saibamos manejá-las. Vejamos algumas delas.

a) a amizade: é um sorriso constante, uma mão sempre estendida, um olhar de compreensão, um apoio seguro, uma fidelidade que não falha. É dar mais que receber, é generosidade e autenticidade. É um tesouro que vale a pena buscar e manter por toda a vida. É um pacto de reciprocidade, de afeição e de generosidade, que une, uns aos outros, os homens virtuosos, firmes de caráter, grandes de alma, gerando, com isso, confiança e fidelidade.

b) a perseverança: a perseverança se nutre de repetições. É como um motor que não para, incansável, e que nos permite voltar às mesmas coisas, insistindo para obter dia a dia uma maior qualidade em tudo. Isto é perseverança: um motor consciente, não o fruto de uma repetição rotineira, mas algo que nos move e que é posto em movimento por nossa própria decisão, por nossa própria vontade. É insistente, não por obsessão, mas porque toma da natureza visível uma de suas leis fundamentais: a ciclicidade, o reconhecer um caminho regular e esforçar-se seriamente em seguir por ele, corrigindo-se quantas vezes forem necessárias. Insistir é como saber encontrar os degraus de uma escada que podem parecer todos iguais, mas que não estão na mesma altura. Perseverança é saber insistir sem cair na rotina. Esse é um móvel heróico!

c) a constância: a constância é a perseverança da mente, ou a perseverança levada ao nível mental. É, portanto, um estado mental que ajuda a ser firme em tudo o que for necessário repetir, em tudo o que não se resolve em um único dia. A constância é a paciência de saber esperar sem cair no esquecimento ou no desânimo. Leva-nos a ganhar continuidade nas ideias (e, portanto nos sentimentos e nas ações) para além das aparentes mudanças de ciclos. É o eixo ao redor do qual podemos nos mover com perseverança.

d) a criatividade: é preciso saber[9] para criar, e saber custa tempo e repetições. Repetir, repetir, repetir... pela imperiosa necessidade de aperfeiçoamento. Aquele que repete não o faz sempre do mesmo modo, o faz cada vez melhor, cresce em cada novo ato de aprendizagem. Não se pode, porém repetir por repetir; é preciso que da repetição origine-se o aperfeiçoamento. Aquele que só repete perde habilidades dia a dia; o que busca o aperfeiçoamento é melhor a cada dia. O que só repete cumpre atos; o que busca a aperfeiçoamento realiza atos. O que só repete envelhece irremediavelmente; o que repete em busca da perfeição está cada vez mais perto da eterna juventude, da “Afrodite de Ouro”. Aquele que se aperfeiçoa no ato repetido é nosso herói cotidiano.

e) o esforço: o esforço e a luta que precedem toda vitória, grande ou pequena, se manifestam especialmente nos planos mais internos da personalidade. Não há dúvida de que muitos esforços requerem a ativa participação do corpo e da energia, mas a raiz desse esforço físico está sempre naquelas coisas que conhecemos ou que queremos; a força do querer e do saber são motores poderosos. Não podemos deixar de reconhecer que as lutas mais terríveis se produzem na psique e na mente. Quem está disposto a lutar senão o herói?

f) a segurança em si mesmo: esta condição é uma das mais desejadas pelo ser humano e, ao mesmo tempo, uma das mais esquivas. Sinônimo de confiança em si mesmo, de auto-afirmação, essa íntima segurança nos permite ser e, consequentemente, fazer tudo o que nos propomos. A segurança em si mesmo vem: do conhecimento de si mesmo e de um esforço inteligente. Em relação ao conhecimento de si mesmo, não se trata de um conhecimento superficial, senão aquele que nos permite nos reconhecermos para além de todas as mudanças, que se aprofunda nos defeitos e que encontra a luz das virtudes escondidas. Esse conhecimento é auferido por meio de ideias claras, precisas e estáveis que vão contribuir em maior medida para a manutenção da segurança em nós mesmos.
O esforço inteligente que leva à plena segurança é o resultado de muitas provas, erros e correções, de muita paciência, de sofrimentos e de recuperar o ânimo após cada queda. É a expressão de um longo trabalho através do tempo. Mostra que a segurança em si mesmo não é um presente, mas uma aquisição. É ter diante de si uma meta clara e seguir pelo caminho reto, sem se desviar nem se deter. Esse é o caminho do herói cotidiano.

g) a serenidade: não implica insensibilidade; dá lugar aos melhores sentimentos e desfruta com eles, na medida em que se expressam dentro das vias éticas e estéticas; permite trabalhar com as melhores ideias porque há espaço, há luz e há tempo para compreendê-las e elaborá-las. Tem como objetivo que não percamos de vista a finalidade de nosso dever.

h) o valor: entende-se por valor:

· a força: coluna interior que sustenta toda a estrutura humana;
· a potência: é o íntimo sentimento de segurança que nos leva a atuar em todos os campos da vida;
· o vigor: é energia. É uma ação constante;
· a intrepidez: é o valor para enfrentar as dificuldades. É coragem diante do perigo;
· a resolução: é a capacidade de resolver os problemas e as ações consequentes para chegar a um bom resultado;
· o estado saudável: é uma saúde que vai além do corpo físico. Exige um saudável equilíbrio da psique e da mente.

i) a vontade: é a força que nos permite corrigir os defeitos que inutilizam as condições positivas das quais se pode dispor.
Disposto a ouvir o chamado da Filosofia que nos impõe o conhecimento de nós mesmos, entramos na senda do herói e todos esses aliados surgem e acorrem em nosso auxílio.

3.4 O retorno

Adentrar na jornada do herói, atendendo ao chamado da Filosofia é iniciar o caminho que leva ao conhecimento de nós mesmos. Para isso, muitas das vezes, descemos às regiões que os mitos identificam como inferiores. Daí a descida de Hércules aos infernos, de Psique, de Perséfone, de Dante, de Jesus de Nazaré, o Cristo. Tudo isso significa o caminho que leva ao desvelamento daquilo que realmente somos. Ao chegarmos ao fim desse caminho, aparecemos ante nós mesmos sem máscaras, sem subterfúgios. Restamos aquilo que realmente somos - com nossas limitações e valores reconhecidos, identificados e trabalhados.

Assim, depois dessa descida, devemos emergir mais íntegros, mais inteiros, mais humanos, porque mais verdadeiros.
Conforme a trilha mitológica do herói, o retorno para o “mundo normal” é acompanhado de uma transformação daquele que volta. O ser humano deve trazer algo novo e útil para a humanidade. Acima de tudo, deve dispor esse algo a serviço da comunidade para a qual retorna.
No caso do herói cotidiano, porque a jornada permitiu a ele conhecer-se é possível que ele possa projetar aquilo que ele quer ser para além do que já conhece. A essa projeção chamamos Ideal. Dessa feita, o herói traz para a humanidade um Ideal pelo qual lutar e pelo qual viver.
Conforme nos ensina um eminente filósofo, “um Ideal é um Ser que mora em uma dimensão superior àquela na qual está inserida a nossa consciência corrente. É o modelo celeste que chama e reclama da sua sombra terrestre uma cada vez maior perfeição a fim de se lhe parecer o mais possível.”
Esse é o presente que o herói-filósofo deve entregar à humanidade quando de seu regresso da jornada individual que trilhou na descoberta de seu próprio ser.
É possível que nos questionemos acerca da praticidade de alcançar o entendimento de algo tão transcendente. Para dirimir essa dúvida, recorremos, mais uma vez, ao inestimável ensinamento do citado filósofo: “um Ideal é algo que, embora o vejamos só esporadicamente com uma certa clareza, deve iluminar toda a nossa vida como um Sol. (...) Assim, se o puro Ideal só é percebido em espécies de Teofanias que nem toda a gente pode ter, as suas “reverberações” ao redor de cada pessoa ou de um grupo de pessoas que seguem esse Ideal devem estar sempre presentes. Deve-se ver o Ideal em cada pássaro, em cada flor, em cada onda do mar. Ao despertar deve-se-lhe dedicar espontaneamente o primeiro pensamento, e o último à noite estará relacionado com o Ideal. Quando se persegue um Ideal pensa-se nele e, por conseguinte, vive-se na sua atmosfera, faça-se o que se fizer, pois até no fundo de uma tigela de caldo ele está; relacionamo-lo com cada incidente que nos acontece, vemo-lo acima da pessoa amada quando a amamos e na mira da espingarda quando disparamos. Vemo-lo na chilreante fricção das grandes correntes de ferros dos barcos e no levíssimo estalido que produz uma folha ao cair na areia. O Ideal justifica o berço e o ataúde; pelo Ideal se vive e pelo Ideal se morre. (...) Não existe o ideal da rosa, mas, tal como indica o pensamento platônico, é Ele que está na rosa e a beleza que descobrimos na flor é, precisamente, o Ideal nessa flor”.

O podemos mais dizer?

Apenas que o Ideal somos nós próprios redescobertos e iluminados pela Divindade e é essa imagem, posta à serviço, o legado do herói para a humanidade.

4. Conclusão

Diante de tudo o que vimos, percebemos que ao falarmos de herói, não estamos tratando dos grandes personagens, desses que seguem brilhando com luz própria no tempo; não. Tratamos dos pequenos heróis cotidianos que realizam verdadeiras sagas, com um esforço digno de titãs, ainda que tenham a estatura de homens.
Cada um tem sua medida. Cada um tem seus sentimentos e suas ideias. Cada um tem seus sonhos, suas ambições. Cada um tem seus desejos de mudar, de melhorar, de deixar o mundo um pouquinho diferente de como o encontrou... . E aí, nesse cada um, com todas essas características, está o herói cotidiano, o que se esforça laboriosamente para conseguir algo, ou muito, da mencionada conquista de si mesmo.
Se algum escritor recolhesse às peripécias destes personagens anônimos e lhes desse expressão com a palavra, converteria personagens e peripécias em heróis e heroísmos, porque saberia destacar o valor de cada experiência, a valentia de cada minuto no ato de conhecer-se e transformar-se.
O sentido heroico da vida não se esgota em uma batalha, nem em uma oportunidade difícil da qual tenhamos saído vitoriosos. Por isso falamos de um SENTIDO DA VIDA, e não de uma ocasião na vida. O sentido da vida é como uma direção geral, um caminho que, com mais ou menos voltas, leva até uma meta.
E o heroísmo consiste, pois, em enfocar cada dia, cada ato, como uma prova na qual todas as nossas forças, desde as físicas até as sutis da inteligência e da alma, vão entrar em jogo. Às vezes cairemos e, outras tantas, quantas faça falta, retornaremos a levantar... Então... Sentiremos o herói em nós. Damos-lhe um lugar e o veremos crescer como uma coluna em nosso próprio interior.
Este é um convite ao heroico: ser diferente, ser melhor, ser claro, honesto e razoável, quando todos insistem em destruir-se em honra da falsidade e da ignorância.

5. Bibliografia

1. CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Editora Cultrix/Pensamento. São Paulo. 2007.
2. CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Editora Palas Athena. São Paulo. 2005.
3. CANSECO, Beatriz Diez. Mais Filosofia, Menos Estresse. Coleção Pérolas de Sabedoria. Edições Nova Acrópole. Brasília. 2009.
4. CATFORD, Lorna. Michel Ray. O Caminho do Herói Cotidiano. Editora Cultrix. São Paulo. 2006.
5. GUZMAN, Délia Steinberg. Filosofia: a Arte de Aprender a Viver. Coleção Pérolas de Sabedoria. Edições Nova Acrópole. Brasília. 2008.
6. GUZMAN, Délia Steinberg. O Herói Cotidiano. Edições Nova Acrópole. Belo Horizonte. 2002.
7. GUZMAN, Délia Steinberg. Para se Conhecer Melhor. Edições Nova Acrópole. Belo Horizonte. 2007.
8. LIVRAGA, Jorge Angel. Pequenos Segredos para Engrandecer a Vida. ___________. Edições Nova Acrópole. ______ .
9. PEARSON, Carol S. O Despertar do Herói Interior. Editora Pensamento. São Paulo. 1991.



[1] Conhecer a nós mesmos.
[2] Bela Adormecida (todos adormecem com ela); Percival (Castelo no Rei Pescador que sofria de grave doença; Hércules (Leão de Neméia que devastava o reino).
[3] Muitos são os chamados, poucos os escolhidos. Mateus 20:1-16; 22:1-14.
[4] Merlin, Ariadne, Atenéia, Virgílio e Beatriz etc.
[5] Clava de Hércules; escudo de Ulisses; beijo do príncipe na Branca de Neve e Bela Adormecida; malha de aço de Siegfried etc.
[6] Buda, depois de alcançar o Nirvana; Hércules, quando volta do Hades; Moisés, quando volta do monte Sinai com as tábuas da Lei etc.
[7] Arjuna, no Bhagavad Gîtâ.
[8] O Espírito que Deus nos deu não nos torna medrosos; pelo contrário, o Espírito nos enche de poder e de amor e nos torna prudentes. 2Tm 1,7
[9] O que sei é o que posso fazer e, enquanto não posso fazê-lo, ainda que seja com dificuldades e erros, não se deve falar de uma verdadeira aprendizagem nem de um verdadeiro conhecimento. DSG

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