sexta-feira, 4 de abril de 2014

O Porquê da Dor - Casa de Euterpe


Iniciarei neste texto comentando acerca de um livro que há algum tempo figurou por mais de 60 semanas está na lista dos mais vendidos da revista “Veja” e há mais de 50 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. A mídia mostrou que foram vendidos, em todo o mundo, mais de dois milhões de cópias de A Cabana.

O enredo explora a vida de um homem atormentado com a morte de sua filha na mencionada cabana que dá título à obra. Quatro anos mais tarde Mack recebe um bilhete pedindo que retorne à dita cabana a fim de colocar o assunto em pratos limpos.

A dor que o personagem sente é brutal e assim é retratada na história.

Ignorando alertas de que poderia ser uma cilada, ele segue em uma tarde de inverno e volta ao cenário de seu pior pesadelo. O que encontra muda sua vida para sempre. No local é recebido por Deus, Jesus e o Espírito Santo, personificados.

Em um mundo em que religião parece tornar-se irrelevante, A Cabana levanta um questionamento atemporal: se Deus é tão poderoso, por que não faz nada para amenizar o nosso sofrimento?

Pesquisando na internet, percebi que a grande maioria das pessoas que leram esse livro acharam-no sensacional e os jovens estão entre os mais assíduos leitores. Por que isso acontece?

Porque as questões levantadas ali são aquelas que atormentam o ser humano desde sempre: a existência da dor. O fato dela poder chegar a qualquer momento, sem aviso, para qualquer pessoa.

A abordagem empregada pelo autor para discutir a questão passa pelo mito cristão. É uma obra extremamente triste e parece que o personagem purga sua dor e não a elimina. Para se ter uma ideia a palavra culpa aparece no texto 52 vezes; pecado, sete; medo, 38 vezes.

Sua imagem central refere-se à entrega total da vida à Divindade. Quase que nos exime de responsabilidade sobre nossos atos. Perpassa pelo tema do sofrimento de Jesus que teria sido e é suficiente para absolver-nos de todas as nossas culpas. Ainda, o sofrimento é tratado desde seu efeito e não se fala de sua causa.

Não há, aqui, nenhuma crítica à obra ou ao modelo adotado pelo autor para tratar da questão da dor. Porém, filosoficamente, podemos afirmar que a ideia de se abordar a dor e a sua eliminação é muito antiga e foi levantada por grandes mestres, desde Jesus Cristo, Confúcio, Lao-Tsé até Krishna e Buda. O que quero demonstrar é que o que o livro trás, qualquer que seja a maneira de abordar o tema, não é novidade. O ser humano sempre questionou-se a esse respeito, porém, nos tempos atuais, ninguém mais trabalha seriamente o assunto.

É fato que o ser humano sofre. É fato, também, que não sabe lidar com isso.

Por isso, obras desse tipo fazem tanto sucesso. Veem preencher um vazio. Veem atender a uma necessidade de compreensão, de aconchego que temos quando somos confrontados com o sofrimento.

Doença, velhice e morte - o destino inevitável de todas as pessoas. Como tentamos proteger-nos desses espectros! Gostamos de acreditar que esses acidentes só acontecem com os outros. A doença é uma interrupção na vida, para o que nem sempre temos tempo. A velhice pode ser adiada com cosméticos, exercícios, planos e otimismo. A morte pode ser enterrada debaixo de rituais elaborados, acessórios caros, flores bonitas. Mas, ainda assim, esses três se fazem perceber - uma pontada aqui, uma dor súbita acolá, e lá estamos nós, fitando a garganta vermelha de Yama[1].

Uma nova síndrome parece estar ficando famosa; ela aflige as pessoas tipicamente aos quarenta anos de idade. Às vezes mais cedo, às vezes mais tarde, mas sempre com os mesmos componentes. A pessoa sente-se completamente à deriva, sem nenhum apoio. Todas as compensações parecem cessar, e a pessoa tem de encarar a morte. Ela vê a inevitabilidade da velhice, que leva à morte, e teme a doença, que será a precursora da velhice. Jung disse que a neurose do jovem surge do medo da vida, mas a neurose de uma pessoa com mais de quarenta anos surge do medo da morte. Nem todos são afetados por essa síndrome, mas a riqueza, o poder, as habilidades ou a vitalidade não são garantias contra ela. Por volta dos quarenta anos, muitas pessoas fazem tolices: abandonam empregos seguros e começam novas carreiras, divorciam-se de companheiros que amaram e com quem viveram por muitos anos, desenvolvem estranhas neuroses; alguns até mesmo caem mortos. Durante anos, evitaram um encontro com o trio apocalíptico esquivando-se com suavidade; planos, objetivos, metas hipotecaram o futuro até que já não há mais tempo...[2]

Os filósofos de todos os tempos, ao responderem a questão “porque é que existe a dor?”, chamam-nos a atenção para o fato de que a dor é um aviso, a dor alerta-nos em distintos planos de consciência quando algo não anda bem. A dor avisa-me quando tenho um dente cariado, quando alguém me calca, quando me trai. A dor é veículo de consciência, aviso para o regresso a um caminho traçado, ou não, previamente.

Assim, podemos perceber que a dor tem objetivo. Não ocorre porque sim e nem deixa de ocorrer porque não.

Dos antigos mestres e filósofos que trataram acerca do sofrimento, aquele que melhor sintetizou o assunto foi Sidharta Gautama, o Buda.

Assim, partindo dessa doutrina filosófica, falaremos um pouco a respeito da dor, das causas da dor, da cessação da dor e do caminho que leva à cessação da dor.

Sidharta Gautama

Buda viveu no século VI antes de Cristo. Esse século foi marcado por grande atividade, tanto social quanto intelectual. Foi a era de ouro, ou do apogeu da história das religiões. Ocorria notável inquietude espiritual e agitação intelectual em muitos países. O aparecimento de mestres religiosos no Oriente e no Ocidente, nesse período, foi quase contemporâneo. A História já testemunhara as mudanças radicais das condições sociais e religiosas em Roma e na Grécia. Enquanto Eráclito ensinava a doutrina panta rhei, ou a teoria do fluxo, em Atenas Pitágoras dirigia a sua já famosa escola.

Na China havia Lao-Tsé, que ativava a mente dos homens com os ensinamentos acerca do Taoísmo. Na Pérsia, atual Irã, Mahavira foi o expoente do Jainismo.

Assim, há dois mil e quinhentos anos atrás, as crenças religiosas não se haviam consolidado em dogmas. A religião era associada à filosofia especulativa e havia um espírito de larga tolerância que abrangia muitas escolas de pensamento. Juntamente com a maior parte do mundo antigo, a maioria dessas escolas aceitava a reencarnação como fato básico. Para os homens inteligentes, sempre parecera impossível que a vida pudesse chegar a um fim com a desintegração do corpo físico e, se assim fosse, era igualmente difícil imaginar que ela aparecesse pela primeira vez com o nascimento físico. Em toda a Natureza há um principio de continuidade em mudança, que nós somos capazes de sentir dentro de nós mesmos, e é isso que tem dado incremento ao conceito de alma imortal no homem.

A iluminação de Gautama Buda modificou a ideia de uma “alma” que transmigra, mas o princípio do renascimento permanece, e este, juntamente com a Lei do Carma, ‘conforme você semear, você colherá’, é que dá ao Budismo o seu código moral. Esses dois princípios, juntos, explicam todas as anomalias da vida, o problema do mal e do sofrimento no mundo.

Buda, que foi fundador dessa grande corrente filosófica, que é o Budismo, é apenas um título, e não um nome. Seu sobrenome era Gotama, ou Gautama em sânscrito, e seu nome próprio era Siddhartha (aquele que alcança o seu objetivo). Seu pai, Suddhodana, era o soberano do reinado dos Sakyas, situado nas colinas ao pé dos Himalaias, na fronteira do Nepal. A rainha Maya era sua mãe.

Seguindo os costumes da época, ele se casou muito jovem, aos dezesseis anos, com a delicada princesa Yasodhara. Como os áugures e restantes haviam previsto que se ele conhecesse o mundo iria entregar-se à mística e ao ensino religioso, seu pai – que não queria isso, mas que o filho fosse o seu herdeiro – reteve-o dentro de um palácio de mármore com grandes jardins, em contato somente com pessoas muito bem constituídas, impedindo-o de ver o mal do mundo. Todavia ele, sendo jovem, sente curiosidade em conhecer a realidade e diz ao seu pai que quer ver o mundo. Então, foi preparado um itinerário turístico especial pela cidade, onde tudo estava previamente “montado”. Percorreu a cidade e todas as coisas estavam perfeitas: as casas limpas com grinaldas por todas as partes; as pessoas eram todas jovens e bonitas, cantavam e vitoriavam, enquanto os passarinhos voavam por todo o lado. Mas, afirmam os textos, os devas, os seres luminosos, querendo de alguma maneira pôr à prova o ânimo do príncipe, fizeram com que este encanto se rompesse. Então Sidharta Gautama viu um homem encurvado sobre um bastão com as pernas a tremer e perguntou ao seu auriga – que faz o papel de seu mestre, como o caso de Krishna e Arjuna, no Bhagavad Gita – quem era esse homem, o que ele tinha, porque é que estava encurvado, porque é que caminhava com dificuldade e se apoiava sobre um bastão. Respondeu-lhe o auriga: “Senhor, é um velho”. E Sidharta contestou: “Pobre! Suponho que isto somente acontece com ele”. “Não, não” – disse-lhe o auriga – “na verdade, Majestade, enfim, todos os homens envelhecem”. Ou seja, disse-lhe a verdade. Sidharta ficou a pensar, mudo e consternado sobre o que é a triste vida do homem: “Então, todas estas formosas donzelas que eu vejo e estes jovens tão erectos, tão cheios de vida, ficarão alguma vez tão encurvados, tão velho, com o olhar tão apagado?” Depois, os devas fizeram com que se cruzasse no seu caminho um doente – que mostrava no seu rosto, nas suas mãos, em toda a sua pele esfoliações, deformações, sumamente repugnantes. Perguntou outra vez ao auriga: “O que ele tem? As suas carnes caem em pedaços, as suas mãos tremem, tem o rosto desfigurado, há partes da cabeça em que lhe falta o cabelo e se vê o crânio, e parece que tem grandes dores... O que tem ele?”. “Senhor” – respondeu – “é um doente...”. “E todos adoecemos?”. “Sim, Senhor, todos podemos ficar doentes em qualquer momento”. “Que triste é a condição dos homens!” – pensou Sidharta – “porque em qualquer momento e por mais são que esteja, talvez por causa de um vento ou devido a uma emanação insalubre de algum pântano, o homem pode adoecer e sofrer”.

Continuou a andar e viu passar um cortejo fúnebre; um grupo de pessoas que transportavam um homem morto numa padiola. Sidharta Gautama viu-o e disse: “Quem é este homem? O que tem? Porque está tão pálido e tão rígido? Porque é que o transportam assim numa padiola?”. “Senhor, é um homem morto”. “E o que é um homem morto?” “Bom, é um homem do qual a vida se foi, os pensamentos abandonaram-no e agora está como uma coisa, uma madeira, uma pedra...”. Sidharta insistiu: “Mas isto é para todos?”. “Sim, Senhor. Isto é o destino inexorável de todos. Pela velhice, pela doença e pela morte, todos nós passamos. É inexorável”.

Dessa forma, o príncipe Sidharta pensou que talvez a vida não tivesse sentido como vida em si e que haveria que buscar o porquê da vida e o que se esconde por detrás de tudo isto, o que se esconde por detrás de todo esse mal, por trás de toda esta dor e por trás de todo este sofrimento.

O Caminho do Meio e as Quatro Nobres Verdades


Com a intenção, assim, de buscar o significado da vida e tendo visto o sofrimento do mundo, retirou-se para uma vida asceta. Após seis anos de intensos esforços e penitências, abandonou as mortificações, declarando, no seu primeiro sermão (Sermão de Benarés), que aqueles que desejam conduzir uma vida espiritual devem evitar os dois extremos: a auto-indulgência e a auto-tortura. A auto-indulgência é baixa e a auto-mortificação é loucura: ambas são insuportáveis.

Há um Caminho Médio (Caminho do Meio) que conduz à serenidade, conhecimento, perfeita paz ou iluminação (Nirvana). Realizou a suprema iluminação por meio da compreensão das Quatro Nobres Verdades, as eternas Verdades que são as concepções centrais de seus ensinamentos:
  • Primeira Nobre Verdade: toda vida sensível envolve dor.
  • Segunda Nobre Verdade: a causa da dor é a ignorância, associada aos apegos. Radica-se no fato do homem confundir a realidade com a ilusão; provém do direcionamento de nossas energias para um mundo mutável.
  • Terceira Nobre Verdade: relativa à cessação da dor. Quando canalizamos a energia da vida para o Eu superior, a dor cessa. A roda karmica gira até compreendermos que para pará-la é necessária a Reta Ação (distinguida, principalmente, pelo Amor, pela Ação por Dever), pelo total desapego, pelo ajuste perfeito com a Lei (Dharma).
  • Quarta Nobre Verdade: acerca do caminho para a cessação da dor: o Nobre Óctuplo Caminho.
Para compreendermos essa doutrina, temos necessariamente que abordar este estado da alma (o sofrimento) que costuma ser o triste companheiro que escurece muitas horas de nossas vidas. Tomaremos como base as premissas do budismo, se bem que as tratemos desde nossa posição atual (que não é muito diferente da dos homens de outras épocas).

Dizem estes ensinamentos que o caminho que conduz à libertação humana passa pela compreensão de quatro verdades: a existência da dor, a causa da dor, a cessação da dor e a via que produz a cessação da dor.

A Existência da Dor e as Causas da Dor

Desde que entramos na vida, a dor aparece sob muitas formas.

A dor é sempre uma perda.

Para o corpo, pode ser a perda da saúde, e esse desequilíbrio físico se traduz em diversos tipos de dor que prendem a atenção e a consciência em geral.

Para a psique, a dor se fundamenta na perda de um sentimento (tanto os que professamos como, sobretudo, o que recebemos de outras pessoas), ou seja, quando as pessoas deixam de gostar de nós, também deixamos de gostar delas.

Pode ser a perda da confiança em algo ou em alguém.

Ou a perda de esperanças postas em projetos que não chegam a se realizar.

Ou a perda da segurança em si mesmo, que se expressa como medo de enfrentar situações difíceis e até mesmo as simples.

Ou a dor que produz a perda de bens apreciados ou de pessoas queridas.

E, em síntese, todas aquelas emoções que refletem a perda de algo que se acreditava possuir, ou a perda de algo que se esperava possuir.

Para a mente, a dor vem da incompreensão.

Quando a mente se fecha, quando se bloqueia e não compreende o significado das circunstâncias, sofre.

Também produz dor perceber que íamos atrás de ideias equivocadas, ou que atuávamos segundo critérios errôneos.

Ou descobrir que tínhamos uma falsa imagem de nós mesmos e que não éramos, na verdade, tal como sonhávamos ser.

Além das causas elencadas acima, outro fator fundamental para a existência da dor reside no fato de sermos impossibilitados de mantermos uma mínima coerência entre o que pensamos, o que falamos e como agimos. Esse desequilíbrio gera dor, pois dá nascimento a uma sensação de vazio, de algo que falta e que não sabemos o que é. Como não sabemos o que é, não temos como preenchê-lo ou preenchemo-lo com coisas para as quais damos importância, mas que, em verdade, não têm. Essa tentativa de preenchimento gera, por vezes, o consumo excessivo, o abuso de álcool ou drogas, o sexo em demasia etc.

É possível que passemos grande parte de nossas vidas utilizando esse equivocado mecanismo de preenchimento. Em determinada época, portanto, provavelmente constataremos que nada ou quase nada originou-se daí. É possível que constatemos que nossa vida foi vazia, fútil, superficial. Isso gera muita dor. A constatação de uma vida inútil é uma das maiores dores que pode acometer-nos.

A Filosofia esotérica vê esse desequilíbrio como falta de vida moral. Ou seja, a desconexão entre o que pensamos e o que, efetivamente, realizamos. Necessitamos, assim, aprimorar esse equilíbrio moral de modo que comecemos a diminuir esse fosso e, consequentemente, diminuir a incidência da dor.

A Cessação da Dor

É provável que a dor não pare nunca totalmente, porque estamos em um caminho de evolução progressiva. O que podemos fazer é começar a reduzir as causas que nos produzem dor.

Para isso, precisamos ver as coisas de uma maneira serena, inteligente e objetiva. Vermos a nós mesmos de longe para perceber as realidades que, de outra forma, nos absorvem tanto que nos cegam para poder nomear e definir.

Como segundo passo, é preciso buscar soluções para resolver os motivos que levaram à dor. Tudo tem uma solução mais ou menos boa, mas se não houver uma vontade para buscar e menos ainda para aplicar a ou as soluções, a dor persistirá. E não somente persistirá, mas nos fará culpar fatores externos por aquilo que não nos atrevemos a enfrentar.

A dor não vai embora sozinha. É preciso mandá-la embora.

A dor não se esquece: transforma-se em uma experiência objetiva que nos enriquece.

A dor assumida e posta em vias de resolução é um seguro para não tornar a cair nas mesmas causas que lhe deram nascimento.

As Vias para a Cessação da Dor

O caminho que conduz à Libertação foi apresentado por Buda como as Quatro Nobres Verdades que encerram o Nobre Óctuplo Caminho. Esse caminho não está concebido para o homem temporal nem para uma moral de costumes. É o caminho que leva o homem para o melhor de si mesmo, que escapa totalmente do tempo. É o caminho que leva à própria Imortalidade e compõe-se de: retas opiniões, retas intenções, retas ações, retas palavras, retos meios de vida, reto esforço, reta atenção e reta concentração.

As retas opiniões: um trabalho diário para sair da ignorância e chegar paulatinamente à sabedoria, como aconselhava também Platão.

Nossas opiniões serão cada vez mais retas quanto mais nos afastarmos da subjetividade, do orgulho de nossas crenças consideradas superiores a outras, do desejo de ter sempre razão.

As retas intenções: em poucas palavras, substituir o egoísmo pela generosidade.

As retas ações: serão a consequência lógica de opiniões ou conceitos corretos e de intenções generosas. Deve-se agregar a vontade de atuar.

As retas palavras: obrigam-nos a pensar antes de abrir a boca. Em lugar de dizer a primeira coisa que as emoções provocam, devemos calcular os efeitos que nossas palavras podem produzir. Devemos ter bem claro se queremos nos comunicar com as pessoas ou se queremos simplesmente discutir e preencher o silêncio com vozes vazias.

Os retos meios de vida: implicam uma conduta moral. Todos precisamos trabalhar para viver, mas há trabalhos que carecem de dignidade. Não nos referimos aos trabalhos humildes, mas sim àqueles outros que atacam a dignidade humana sob as mil faces da corrupção.

O reto esforço: consiste em usar nossas energias sem dilapidá-las, mas também sem avareza. Quem se esforça para dar e fazer o máximo, estende os limites de sua capacidade. Quanto mais se esforça, mais pode.

A reta atenção: a atenção é o mais alto poder da consciência e, se está bem dirigida, é mais forte ainda.

A reta concentração: consiste em estar a maior parte do dia no eixo de nossa consciência, eliminando paulatinamente suas oscilações emocionais e mentais.

O que Fazer Enquanto Tentamos Superar a Dor?

Sabemos que, por melhores que sejam esses conselhos, eles não podem ser aplicados imediatamente e que tampouco os resultados se obtêm de imediato.

Assim não devemos:
  • paralisarmo-nos pela dor: não esperar que a dor desapareça totalmente para continuar com nossas ações ou empreender outras novas e melhores. É preciso saber caminhar de mãos dadas com a dor;
  • cair na impaciência: se a dor levou um longo tempo para se instalar e se manifestar, necessita de outro tempo – não tão longo – para dar lugar a uma liberação. Deve-se desenvolver uma paciência ativa;
  • cair em emoções e em ideias de subvalorização: isso não é justo. Em vez de nos desvalorizarmos, devemos tratar de sair do escuro poço da dor e fazer com que a auto-estima cresça;
  • irritarmo-nos: não culpar os demais nem deixar cair sobre eles o estado negativo da dor.
E, sobretudo, levar sempre em conta os muitos fatores que nos dão satisfação, que nos dão alegria e entusiasmo, os muitos benefícios que a vida nos outorgou, sem sermos ingratos com o destino.

Conclusão

Até o momento, compreendemos que:
  • a dor é absolutamente presente em nossas vidas;
  • existem causas de dor em todos os veículos da personalidade;
  • existe um caminho que leva à cessação da dor: o Óctuplo Nobre Caminho;
  • de forma prática, há atitudes positivas que podemos adotar perante a dor: evitar a paralisia ante ela, não cair na impaciência, não incidir em emoções ou em ideias de subvalorização e não irritarmo-nos.
Tudo isso é de inegável importância. Todavia, devemos nos questionar: porque necessitamos lidar ou diminuir ou, até mesmo, eliminar a dor?

Uma respostas possíveis à essa pergunta é: para melhorarmos nossa qualidade de vida, para sermos felizes!

Porém, o que significa essa qualidade de vida? Essa felicidade? Será a qualidade objetiva da produção material, onde o homem é tanto melhor e mais feliz quanto melhor se encontra o homem-produtor? A filosofia ensina que essa qualidade de vida (que considera a riqueza e o bem estar material) tem uma motivação de partida que não cobre todo o espectro humano; procura uma maior e melhor produção, mas não costuma tomar em consideração as outras necessidades inerentes à condição de se estar vivo, de se enfrentar com dúzias e dúzias de situações que nem sempre têm a ver com o trabalho ou com a produtividade. Para falar de uma autêntica qualidade de vida, devemos considerar o homem na sua integridade, e não somente no que pode dar e produzir. Há que considerar uma educação que, desde os primeiros anos, dê atenção ao desenvolvimento psicológico, mental, moral e espiritual de quem, mais adiante, terá de dar o melhor de si, procurando, antes de tudo, ser melhor.

No plano psicológico, é importante que cada qual saiba distinguir as suas emoções cotidianas e passageiras daqueles sentimentos profundos que podem e devem ser alimentados para que perdurem e proporcionem uma felicidade estável (...).

No plano mental, não é somente necessário estudar, tal como hoje em dia é entendido, porque a realidade demonstra-nos com quanta facilidade se esquece aquilo que é mal estudado. É necessário aprender, recordar com inteligência, somar experiências próprias e dos outros, tornar vital toda a aprendizagem para obter, também neste nível, qualidade de vida.

No plano moral, e embora os exemplos diários indiquem o contrário, é indispensável desenvolver virtudes latentes em todos os seres humanos. Não importa que ‘não esteja na moda’ ser bom, honesto, justo, prudente, cortês, valoroso, generoso, digno; simplesmente sem essas e outras características similares, não haverá qualidade de vida. E os fatos demonstram-no.

No plano espiritual, sem cair em fórmulas fanáticas e intransigentes, há que oferecer uma saída às inquietudes da alma que quer saber o que fazemos aqui no mundo, de onde viemos e para onde vamos. Sobram ensinamentos e conselhos de grandes sábios, os de ontem e os de hoje, para assinalar perspectivas nesse sentido. Há que saber aproveitá-las e deixar de lado a vaidade preconceituosa de que ninguém nos pode transmitir nada de válido, e menos se são conceitos que trespassam o Tempo desde a Antiguidade.

Verdadeiramente, todos queremos qualidade de vida. Mas queremos dar à Vida o seu verdadeiro e amplo significado e que a qualidade nos faça melhores em todos os aspectos. Então seremos eficazes, mais felizes, mais inteligentes, um pouco mais sábios e poderemos ostentar com orgulho o qualificativo de seres humanos.

Diante de ensinamento tão significativo podemos concluir que o lidar ou diminuir ou, até mesmo, eliminar a dor deve ter como objetivo proporcionar-nos uma qualidade de vida e uma felicidade próprias do homem.

Bibliografia

1. GUZMAN, Délia Steinberg. Para se Conhecer Melhor. Edições Nova Acrópole. Brasília. 2007.

2. LIVRAGA, Angel Jorge. O Sentido Oculto da Vida. Edições Nova Acrópole. Lisboa. 2008.

3. YOUNG, P. Willian. A Cabana. Editora Sextante. Rio de Janeiro. 2008.

4. http://www.nossacasa.net/SHUNYA/default.asp?menu=24

[1] Yama (Sânscrito: यम) é o senhor da morte no Hinduísmo, primeiro registro feito nos Vedas. Yama pertence as primeiras camadas da mitologia Indo-Iraniana. Na tradição Védica Yama foi considerado ser o primeiro mortal que morreu e espiou o caminho para a morada celestial, e em virtude da sua precedência ele tornou-se o regente do mortos. Em algumas passagens, entretanto, ele já é considerado deus da morte. http://pt.wikipedia.org/wiki/Yama


[2] http://www.nossacasa.net/SHUNYA/default.asp?menu=24


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