quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tristão e Isolda - Casa de Euterpe



1.     O que é Mito
Chevalier[1] descreve o mito como transposições dramatúrgicas dos arquétipos e dos símbolos. Assim, o mito aparecerá como um teatro simbólico de lutas interiores e exteriores a que o homem se entrega no caminho de sua evolução, na conquista de sua personalidade. O mito condensa, em uma só história, uma multiplicidade de situações análogas; mais além de suas imagens movimentadas e coloridas, permite a descoberta de tipos de relações constantes entre essas diversas imagens.
Segundo Campbell, em Para Viver os Mitos, a mitologia é, aparentemente, contemporânea da humanidade. Desde que fomos capazes de acompanhar as primeiras evidências fragmentadas e dispersas da emergência de nossa espécie, foram encontrados sinais indicando que as metas e as preocupações mitológicas já moldavam as artes e o mundo do Homo Sapiens. Além disso, essas evidências nos dizem algo a respeito da unidade da nossa espécie; pois os temas fundamentais do pensamento mitológico permaneceram constantes e universais, não somente ao longo de toda a história, mas também ao longo de toda a ocupação da Terra pela humanidade.
Neste aspecto, o Professor Michel Echenique ensina que os mitos são histórias sagradas, pertencentes ao domínio do divino e formam parte do simbolismo universal. Como formas sublimes, relacionam-se com o ser humano desde a sua mais tenra idade.
Podemos dizer que o mito exprime, em uma linguagem simbólica, aquilo que o entendimento só com muito esforço e em uma linguagem indireta pode alcançar.
No dizer de Francisco Andrés Taboada, estudar as antigas tradições é algo apaixonante, mas de modo algum se deve pensar que os deliciosos contos e lendas de heróis e fadas sejam apenas fantasias destinadas a alimentar a imaginação infantil. Há, em cada um deles, uma essência oculta, algo velado que porta um conhecimento.
Diz, ainda, o autor que é preciso estabelecer um diálogo com os mitos e as lendas. É preciso saber que desde o começo da investigação, eles permanecerão na mente do investigador de forma quase constante, o qual não deve privar-se desse acontecimento edificante e também vivificante.
Disse o imperador Juliano que “o que nos mitos se apresenta como inverossímil é precisamente aquilo que nos abre o caminho da Verdade. Efetivamente, quanto mais paradoxal e extraordinário é um enigma, mais parece advertir-nos para não confiar na palavra nua, mas a padecer em torno da Verdade oculta.”
O mito e o simbolismo como um todo são uma semente e, ao mesmo tempo, uma fórmula acabada. Como semente é a intuição que chega de forma direta ao coração humano e cresce como linguagem simbólica, ou seja, da imaginação.
De acordo, novamente, com o Professor Michel Echenique, os fatores componentes da fórmula do mito são: a medida, a proporção, o ritmo e a harmonia. Isso permite o desenvolvimento das ciências como a matemática, a estereometria e a dialética, entre outras.
Joseph Campbell escreve que os mitos ensinam que podemos nos voltar para dentro e, a partir desse retorno, começarmos a captar a mensagem dos símbolos nele contidos. Diz, também, que mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana; são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano; abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaze a todas as formas. Dessa forma, é importante que cada indivíduo encontre um aspecto do mito que se relacione com sua própria vida.
Na obra Mitologia – Lendas e Mitos de Todo o Mundo, os autores destacam que “considerando que o mito é uma linguagem espiritual, se for corretamente decodificado, poderá abrir um universo a todos os que tenham ouvidos para escutar.
Taboada, Campbell e demais obras citadas são corroborados pelo ensinamento de HPB.
Em Simbolismo e Ideografia, a autora insiste em que “nenhuma narrativa mitológica, nenhum acontecimento tradicional das lendas de um povo, em qualquer época, representou simples ficção, mas possui, cada qual, um fundo histórico verdadeiro.” Assim, firma o entendimento de que as tradições e as mitologias contêm verdades históricas e não são, conforme preconizam alguns mitólogos, tendências supersticiosas dos antigos.
Blavatsky alerta, também, que, embora os mitos representem verdades históricas, os mesmos não devem ser interpretados literalmente. Destaca que, por exemplo, “aceitar a letra morta da Bíblia vale por incidir em um erro mais grosseiro e supersticioso que os já produzidos pelo cérebro de um selvagem das ilhas dos mares do Sul.”
Ainda, HPB in Glossário Teosófico diz que “comumente se entende por mito uma fábula ou ficção alegórica, que encerra no fundo uma verdade geralmente de ordem espiritual, moral ou religiosa. (...) Os mitos têm um duplo significado. Muitos deles resultam em realidades e a maior parte não são invenções, mas transformações, pois têm como ponto de partida fatos reais. ‘Os mitos – diz atinadamente Pococke -, está provado agora, são fábulas na mesma proporção em que os compreendemos mal e são verdades na proporção em que eram compreendidos noutro tempo. Os mitos tiveram e têm ainda, para as massas populares, o valor de dogmas e realidades e constituem as bases das religiões exotéricas.’ (...) Para todo pensador é de suma importância examinar, com a maior atenção, os mitos sob todos os aspectos, aplicando-lhes cada uma das sete chaves, e descobrir as verdades transcendentais ocultas no fundo de tais ficções.”
Até o momento compreendemos que o mito constitui uma verdade histórica e que é permeado de símbolos os quais são expressados por ele. Ainda, que estes símbolos devem ser entendidos e interpretados de forma não literal e trazem, em si, um enigma.
Retomando Campbell, em Para Viver os Mitos, existe, ainda, uma abordagem apresentada por Carl G. Jung, em cuja concepção as imagens advindas da mitologia e da religião servem para fins positivos, em prol da vida. De acordo com o seu modo de pensar, todos os órgãos de nossos corpos têm seus propósitos e seus motivos, estando algum deles sujeitos ao controle consciente, outros, não. Nossa consciência orientada para o exterior, dirigida para as demandas do dia-a-dia, pode perder contato com essas forças internas; e os mitos, afirma Jung, quando lidos corretamente, constituem o meio de nos por de volta em contato. Eles nos contam, em linguagem figurada, a respeito de forças da psique a serem reconhecidas e integradas em nossas vidas, forças que sempre foram comuns ao espírito humano, e que representam a sabedoria da espécie, graças à qual o homem tem vencido os milênios.
Ainda, segundo, Campbell, uma mitologia adequadamente operante, uma mitologia viva, tem quatro funções:
*     mítica: desperta e mantém no indivíduo um sentido de reverência e de gratidão em face da dimensão de mistério do universo, não a ponto de viver com medo dessa dimensão, mas sim, de reconhecer que participa dela;
*     cosmológica: a segunda função de uma mitologia viva consiste em oferecer uma imagem do universo que esteja de acordo com o acontecimento de seu tempo, das ciências e dos campos de ação da comunidade a que se dirige a mitologia;
*     sociológica: a terceira função consiste em validar, apoiar e gravar as normas de uma ordem moral específica, a saber, a da sociedade em que o indivíduo deve viver;
*     pedagógica: a quarta função consiste em guiá-lo, etapa por etapa, na saúde, na força e na harmonia de espírito, ao longo de todo o curso previsível de uma vida útil.
Além do mais, ainda no dizer de Campbell[2], existem as águas dos arquétipos universais da mitologia. Diz o autor que ao longo de toda a sua vida, como estudioso das mitologias, trabalhou com esses arquétipos e, afirma, eles existem e são os mesmos em todo o mundo. Nas várias tradições, são representados de variadas maneiras; como, por exemplo, em um templo budista, na catedral medieval, no zigurate sumeriano ou na pirâmide maia. As imagens de divindades se diversificarão em várias partes do mundo de acordo com a flora, a fauna, as características raciais, a geografia local e assim por diante. Os mitos e os ritos receberão diferentes interpretações, diferentes aplicações racionais, diferentes costumes sociais para validá-los e impô-los. E, não obstante, as formas e as ideias arquetípicas, essenciais, são as mesmas – são, com frequência, espantosamente iguais. E assim, pois, o que elas são? O que elas representam?
Quem melhor lidou com elas, quem melhor as descreveu e que melhor as interpretou é Carl G. Jung, que as chama de arquétipos do inconsciente coletivo, pertencentes àquelas estruturas da psique que não são produtos da experiência meramente individual, mas são comuns a toda humanidade.
Em corroboração a esse pensamento, Mircea Eliade, em Mito do Eterno Retorno, nos diz que a história do Cosmo e da sociedade humana é uma história sagrada, preservada e transmitida por intermédio dos mitos. Mais do que isso, é uma história que pode ser repetida de maneira infinita, no aspecto de que os mitos servem como modelos de cerimônias de reatualização periódica dos importantes eventos ocorridos no princípio dos tempos. Os mitos preservam e transmitem os paradigmas, os modelos exemplares, para todas as atividades responsáveis a que o homem se dedica. É uma realidade cultural extremamente complexa que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares. Assim, o mito trata de uma realidade sagrada, pois o sagrado é o real por excelência. Narrando uma ontofania[3] sagrada, a triunfante realização e manifestação da plenitude do ser, o mito torna-se o paradigma de todas as atividades humanas.
Com essa mesma concepção, Malinowski, citado por Crema in Mitos e Ritos: Breve Resenha, considera o mito como uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva, satisfazendo profundas necessidades e oferecendo regras práticas e orientadoras da conduta humana.
O universo mítico retoma a discussão dos valores perenes, na incessante busca da verdade. Por meio dele, com seus enredos povoados de heróis, deuses e feitos extraordinários, redimimos uma ausência em nós mesmos, indagamos acerca das principais questões que nos afligem e somos capazes de resignificar nossa existência.
2.     O Mito de Tristão e Isolda
A história de Isolda e Tristão é a mais famosa lenda celta, que nos chegou a partir do século XII, por meio de textos fragmentados. Por detalhes da história, trata-se de uma lenda pancelta, pois encontramos, atestando uma trama original, elementos bretões, gauleses, córnicos, pictos (em particular, o nome de Tristão) e irlandeses. Todos os elementos fundem-se em um grande épico cuja beleza poética está fora de dúvida. Com a lenda de Isolda e Tristão possuímos uma das obras mestras da humanidade.
Os textos mais antigos são franceses, mais exatamente anglo-normandos, pois os normandos, senhores da Inglaterra, constituíam, no século XII, os intermediários constantes entre os bretões e os franceses.
Tristão é filho de Rivalen de Loonois e da irmã do rei Marcos da Cornualha, Brancaflor. Seu pai é morto pelo Duque de Morgon e sua mãe morre quando ele nasce. Assim, foi criado por Rohald, o Defensor da Fé e confiado ao ginete (cavaleiro) Gorvenal. Aprende a arte da caça, a arte militar e também a música e a poesia. Sobressaía-se tocando harpa, cantando e compondo. Com a idade de quinze anos é sequestrado por mercadores, foge e consegue chegar à Cornalha, reino de Marcos, em Tintagel, o qual o acolhe em sua corte sem saber quem ele é.
Algum tempo depois, Rohald chega à Cornualha e conta à Marcos que Tristão é o filho de sua irmã, Brancaflor e do Rei Rivalen. Diz, ainda, que o Duque Morgan detém por fraude sua terra e que esta precisa ser reconsquistada. Tristão reconquista sua terra e, deixando-a para Rohald, retorna para a Cornualha para servir a Marcos.
Três anos mais tarde, chega o prazo do tributo que devia ser pago pelo rei Marcos ao rei da Irlanda, constituído de trezentos jovens do sexo masculino e trezentas donzels, reclamados a cada cinco anos por um temível guerreiro, Morholt, irmão da rainha da Irlanda. Esse tributo devia ser pago até que um cavaleiro de Cornualha se opusesse a ele.
Ninguém se arrisca a enfrentar Morhold, exceto Tristão, que decide ir combatê-lo, desvendando sua verdadeira identidade ao tio. O combate tem lugar na Ilha de São Sanção. Tristão resulta ferido pela espada envenenada de Morholdt, porém fere mortalmente a este, inclusive arrancando-lhe a cabeça.
Tristão é festejado como herói, porém sua ferida se agrava e os esforços médicos são inúteis. Ele pede então para que o deixem partir em um pequeno barco à vela, com provisões e sua harpa: navegará até sua morte ou cura. Assim é feito. No quinto dia, Tristão atraca na Irlanda. Ali é tratado e curado pela rainha e sua filha, ambas chamadas Isolda. Havia ocultado sua identidade e disse chamar-se Tantris. Como agradecimento à rainha, dá lições de canto e harpa a jovem Isolda.
Depois, retorna ao castelo de seu tio, em Tintagel, e desta vez, enfrenta o ciúmes dos barões e de outro sobrinho do rei Marcos. O rei não tinha filhos, pois não era casado, e todos sabiam de sua preferência por Tristão para o suceder. Pressionado pelos nobres, Marcos afirma só se casar com uma mulher a quem pertença um longo cabelo dourado que uma golondrina acaba de deixar cair. Tristão imediatamente reconheceu o cabelo como pertencente a Isolda e se oferece ao tio para ir pedi-la em casamento.
Tristão parte disfarçado de mercador e chega novamente a Irlanda. Para obter a mão da filha do rei, vence um dragão que estava devastando a região. Ferido, desta vez pelo dragão, Isolda volta a curá-lo.
Tristão é o assassino de Morholdt e só lutou pela mão de Isolda para oferecê-la ao seu tio, o rei de Cornualha, tradicional inimigo da Irlanda.
A mãe de Isolda prepara uma poção a base de ervas do amor, um filtro mágico, que tinha o poder de fazer nascer um amor profundo e verdadeiro entre as pessoas que o bebam. Confia-o a Brangien, a aia de Isolda, para que essa só sirva a sua filha e ao rei Marcos na noite de núpcias.
Quando Tristão e Isolda estão a bordo do navio acabam bebendo por erro o filtro, e instantaneamente caem vítimas de um amor profundo, uma paixão desenfreada, a qual se abandonam por completo já que avistam ao longe as costas de Cornualha.
Mas não tinha como voltar atrás e Isolda casou com o rei e, na noite de bodas, é Brangien, sentindo-se culpada pela confusão do filtro, quem ocupa o lugar de sua dama no leito nupcial, para que Marcos não descobrisse a traição dos amantes. O casamento não foi obstáculo para Tristão e Isolda, que, vítimas do filtro, se reúnem sempre que podem. Seu lugar preferido é um vergel, um lugar cerrado ou um jardim, onde os amantes reconstruíam um estado primitivo paradisíaco. Por isso, Isolda ficou conhecida como a Rainha do Vergel.
Os adversários de Tristão buscavam mil maneiras para avisar o rei sobre a traição. Um certo dia, os amantes são descobertos e condenados a morrer na fogueira.
Graças a sua astúcia e força física, Tristão consegue evadir-se e libertar Isolda que havia sido entregue aos leprosos.
Perseguidos pelo rei refugiam-se na floresta do Morois, onde vivem livres e felizes muito tempo, mas enfrentando as dificuldades da vida selvagem. Tristão é um excelente caçador, fabrica um arco "que nunca falha" que lhes assegura o sustento. Músico maravilhoso, com as notas retiradas de sua harpa consegue distrair Isolda.
Depois de muitas aventuras, Isolda irá se reconciliar com o rei. Algumas versões da lenda, diz que o filtro tem duração de três anos e ao final desse Isolda retorna para Marcos. Mas a condição para reconciliação era que Tristão deveria abandonar a corte do rei Marcos. E assim ele fez, embarcando para a pequena Bretanha continental.
Lá chegando, ajuda o conde Hoël a vencer seus inimigos. Esse concede então a mão de sua filha, a bela Isolda das mãos brancas. Tristão consente no matrimônio, justamente por causa do nome da princesa, mas nunca terá contato físico com ela, pois seu corpo e seus pensamentos seguem pertencendo a outra Isolda.
Passa um tempo e depois de muitas batalhas, Tristão é ferido por uma lança envenenada. Sente sua vida esvair-se e sabe que só a Isolda a Loira poderá curá-lo. Manda mensageiros pedindo que viesse salvá-lo. Se conseguirem realizar a missão, deverão ao retornar colocar uma vela branca na embarcação, si não, uma vela negra. Isolda das Mãos Brancas, sua esposa, debate-se entre o amor de Tristão e os ciúmes frente a outra Isolda.
Os mensageiros cumprem a missão e trazem Isolda a Loira, em seu socorro, mas enfrentam uma grande tempestade e depois uma calmaria. Finalmente, quando estão quase chegando no porto, Tristão já não tem mais força para manter sua vida, mas ainda pergunta que cor era a vela da embarcação que chegava. A esposa, que sabia do acordo  que fizera com os mensageiros, anuncia ao marido que a vela é negra. Tristão morre e quando Isolda a Loira chega ao palácio, morre também. Assim, os amantes se reúnem na morte e, quando os enterram lado a lado, em tumbas diferentes, uma vinha e um roseiral surgem em cada uma das tumbas e se entrelaçam e não foi possível separá-las.
 3.     O Simbolismo
O tema de Tristão e Isolda nos faz retroceder no tempo até um conceito mágico da vida e da História.
Todos sabemos que o homem da Antiguidade tinha o costume, muito diferente do nosso, de representar fatos históricos, inclusive os puramente humanos, mediante símbolos, cuja interpretação, hoje em dia, quase perdemos em sua totalidade.
Tristão e Isolda é um exemplo disso.
Nenhuma obra medieval conheceu êxito comparado ao seu. Pelo próprio realismo e fantasia, seu halo misterioso e seus rasgos profundamente humanos, fascinou o público de todas as épocas. Contém tudo aquilo que desejamos que tenha uma boa novela: aventura, magia, intrigas, amor, velhos ressaibos de crenças primitivas e uma distinta concepção do mundo; todo ele tecido sabiamente para dar ao homem uma mensagem de eternidade e de seu próprio destino, que é sempre o mesmo através das sucessivas etapas da História.
Desde os antigos mitos, sagas e lendas, têm-se criado histórias populares que contêm características peculiares comuns a todas elas e que acumulam a natureza arquetípica desta herança.
Os padrões arquetípicos de que são feitos expressam de uma maneira correta as principais imagens e símbolos que se reproduzem em todo o mundo, e constituem um recurso do homem para entender a si mesmo e ao mundo que o rodeia. Por meio desses padrões do mito, da saga, da lenda etc. decorre um significado cósmico, enraizado profundamente na natureza humana, que toca continuamente as cordas sensíveis e busca respostas.
A origem de Tristão e Isolda parece encontrar-se nas sagas celtas. Esta lenda transcorre precisamente em regiões celtas (Cornualha, Irlanda, Pequena Bretanha), e alguns nomes de personagens parecem ser também de origem celta. Se a isto acrescentamos as alusões à lenda do Rei Arthur que contém, corrobora-se a suposição. O que é certo é que suas raízes provêm da saga – por sua característica histórica e aristocrática – a maneira d’O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, Parsifal, Lohengrin etc. Além disso, a saga é frequentemente trágica, não tem um final feliz, baseia-se principalmente em elementos racionais, embora possam aparecer alguns elementos mágicos e sobrenaturais – como o filtro de amor – e fala-nos sempre de uma luta interna do homem consigo mesmo e com a natureza que o rodeia.
Essa luta vem de um pesamento ancestral do homem: a recordação de um paraíso perdido que alguma vez existiu. Embora a mente racional do homem atual ponha obstáculos a este fato, o certo é que todos os livros sagrados das religiões de todo o mundo falam-nos dele, e somente sua especulação é suficientemente significativa para inflamar o coração do homem humilde e religioso e fazê-lo sentir a nostalgia de sua recordação e o desejo de voltar a recuperá-lo. Recuperar essa “idade de ouro”, esse lugar e esse tempo em que o terreno era divino, em que o homem e os deuses podiam se encontrar e comunicar-se com toda a naturalidade, quando não havia separação entre ambos e os animais, assim como entre qualquer das manifestações vitais de toda a Criação.
Essa busca incessante da alma por recuperar esse reino ideal em íntimo contato com o divino monstra-se a nós nessas velhas histórias míticas; mas não somente como recordação de sua existência, senão também como meio de recuperar esse estado natural do homem.
A lenda de Tristão e Isolda tem-se formado mediante sábia fusão de elementos de origens diversas; alguns deles bastante folclóricos, outros essencialmente míticos e simbólicos.
Essa bela história de amor e de morte começa precisamente com um fatal desenlace. O pai de Tristão, Riwalin, é morto por seu pior inimigo, Morgan; pouco tempo depois, sua mãe (Brancaflor) lhe dá à luz e morre também. Ante esses tristes acontecimentos, dão ao recém-nascido o nome de Tristão – “triste”. É assistido pelo fiel Rual, conselheiro de seu pai, e amamentado por uma dama nobre, viúva de um cavalheiro. Começa, então, sua etapa de discipulado, aprende a ler e a escrever e em pouco tempo conhece as artes próprias de um cavaleiro. Kurwenal ensina-lhe a correr, a atravessar de um salto os mais fundos fossos, a manejar a lança, a espada, o escudo e o arco e a lançar o disco de pedra. Também é acostumado a detestar toda a traição, a socorrer os débeis e a guardar a palavra dada. Ensinaram-lhe diversas formas de canto, e logo soube tocar perfeitamente a harpa, a rota e a cítara, além de ser admirável na arte da caça. Mas, ao chegar aos quinze anos, tem de partir para buscar aventuras que o levarão a formar-se como cavaleiro.
Até aqui, é muito fácil comprovar que o relato está falando de uma forma modelo de educação – da qual também nos fala Platão em sua República - : em seus primeiros anos a criança segue, de algum modo, unida à mãe, seguindo a mesma lei que dispõe que ela é quem, a princípio, a alimenta de seu próprio corpo; por isso, há de seguir o cuidado da mulher, até que se desprenda dessa dependência e, ao mesmo tempo, comece a ter já um certo domínio e conhecimento de seu próprio corpo físico. Esse processo tem um desenvolvimento gradual até os sete anos aproximadamente, quando começa, então, outra etapa, uma etapa de tipo energético.
É o momento dos jogos. Nesse momento de sua vida, possui uma grande energia e é preciso que a desenvolva e a empregue de forma correta. Desse modo, é o melhor momento de aprender, de captar as coisas que lhe ensinam, sobretudo se são de tipo manual, onde tenha de utilizar seu corpo de forma útil.
A partir daqui, aos quatorze anos, vem um momento de transição importante, em que a criança entra em uma vivência intensiva de seu mundo emocional. É o desenvolvimento do caráter, o despertar do poder latente, o passo da infância para a maturidade, da inocência para a experiência, avançando entre tentações que o fortalecerão e purificarão.
É nesse tempo que Tristão conhece sua verdadeira origem e identidade como filho e herdeiro do rei da Parmenia, que até então se havia mantido oculta por temor às represálias do cavaleiro Morgam, assassino de seu pai, a quem mais tarde nosso herói matará em um duelo. É então que, na corte de seu tio, rei da Cornualha, vive as maiores aventuras. Chega a querer tão bem seu tio Marcos que estabelece sua vida naquele reino e lá se torna cavalheiro. É o encantamento do jovem pelo mundo circundante que começa a se abrir ante seus olhos. É o momento das emoções que fazem morada nele, desde as mais puras que há de desenvolver e elevar, até as mais grosseiras contra as quais há de lutar e vencer; momento crucial que é representado no combate contra Morold que, representando o reino da Irlanda, ao qual a Cornualha está submetida, vinha de tempos em tempos cobrar um tributo de trezentos jovens e trezentas donzelas. A morte de Morold representa o domínio das paixões do homem. Conclui-se uma etapa, mas começa outra.
Tristão é gravemente ferido e somente pode curar-se pelas artes mágicas da princesa Isolda, da Irlanda. Mas, agora que a Cornualha acabava de se tornar independente desse reino, Tristão tem de se disfarçar, esquecendo-se de sua identidade atual, para poder penetrar nesse reino mágico e entregar-se aos cuidados de Isolda, ante a qual se apresenta com o nome de Tantris ao invés de Tristão. Para chegar à Irlanda, teve de percorrer um grande trecho de mar completamente sozinho. É aqui que encontramos um símbolo universal: a água, que representa a psique e também o caminho para outros reinos distintos e desconhecidos. É um símbolo notadamente feminino de nascimento-nutrição-morte-renascimento. Trata-se de uma prova de Iniciação aos Mistérios, onde ao candidato dá-se um novo nome, dado que acaba de nascer para o mundo do espírito.
Tristão regressa curado e a salvo ao reino da Cornualha; ali é recebido com grandes honras e é nomeado herdeiro do rei. Entretanto, os conselheiros do rei Marcos o dissuadem da ideia e o obrigam a casar-se para que sejam seus próprios filhos os legítimos herdeiros do reino. O mundo materialista nunca suportou ser guiado por um caminho espiritual que escapa aos seus pobres raciocínios.
Tristão, então, parte em busca de uma esposa para seu rei, mas a única merecedora de sua aprovação é a princesa Isolda. Assim, novamente embarca para a Irlanda em busca da futura rainha. Para isso, tem de enfrentar um dragão que assolava aquelas terras. O dragão é símbolo da parte pior do homem, a inimiga da verdadeira natureza humana e vencê-lo é requisito indispensável para alcançar a mão de Isolda, a sabedoria da alma.
A mulher, nas representações tradicionais dos diferentes povos, simboliza a sabedoria, mas também a vida, no significado superior dessa palavra – como potência, como o que consagra e transforma o herói e lhe confere dignidade de rei; como acontece no primeiro encontro de Tristão e Isolda.
Nas tradições helênicas, a Inteligência ou sabedoria nascida do espírito estava representada por Atena.
No Egito, são mulheres que oferecem os lótus ao faraó, como símbolo da ressurreição. As mesmas valquírias da tradição nórdica não são mais do que o poder misterioso, transcendental, que leva os guerreiros à vitória e conduz os heróis mortos na batalha para a vida imortal. E a própria tradição celta é rica em mitos nos quais as mulheres sobrenaturais sequestram os heróis e os transportam a uma ilha misteriosa, para transformá-los em imortais mediante seu amor e dotá-los da saúde e da juventude eterna.
Nesse momento, a dama conquistada, após haver padecido provas heroicas e vivido todo o tipo de aventura, é a representação na Natureza, que introduz aquele que ama no reinado simbólico de horizontes espirituais.
Tristão representa o homem cuja natureza humana não regenerada avança em busca de sua própria alma, para alcançar a realização de seu próprio ser, através da viagem que leva desde o corpo, à alma e ao espírito. Nesse processo, não somente encontra sua própria identidade, mas também ajuda outras pessoas, livrando-as de algum tipo de poder contrário.
Nessas lendas, o herói representa sempre um ideal a seguir: é o jovem Sol que se eleva das águas, que enfrenta primeiro as nuvens inferiores, mas, finalmente, triunfa sobre todos os obstáculos.
Esses obstáculos são muitos e variados. A história deve começar com algum tipo de problema ou golpe de má sorte, já que a descida da alma ao mundo da revelação é a tremenda descida do paraíso perdido. Nesse tipo de relato, as diferentes situações são indubitavelmente humanas, mas se encontram, no entanto, um passo além da vida humana comum. Os atos e os sentimentos, embora se expressem em termo humanos, estão transformados e espiritualizados.
O herói, em contraposição ao que realmente acontece, pode cavalgar por selvas, desertos e países estrangeiros, sem necessidade de séquito ou acompanhamento. Nisso vemos o simbolismo antigo do rei ou sumo sacerdote eleito, partindo sozinho para encontrar-se com a Divindade. Como a mítica lenda do rei Arthur, símbolo também do homem e sua busca e sua luta. Essa luta interna com a qual nos enfrentamos diariamente vem desde o mais remoto dos tempos, porque o homem sempre teve os mesmos problemas e as mesmas angústias desde que é homem. E essas velhas lendas de fundo iniciático são feitas para dar ao homem ensinamento, uma possibilidade de recuperar-se a si mesmo mediante a vitória diária de suas próprias limitações.
Também é certo que, muitas vezes, inclusive os próprios símbolos ultrapassam nossos limites, porque representam uma superação interna que agora vemos distante e praticamente impossível de conseguir, simplesmente porque não começamos a realiza-la, porque não a temos proposto. Se começamos pelas pequenas coisas, pelo pequenos defeitos, pelos pequenos impedimentos de nossa vida diária, chegaremos depois às grandes provas, aos grandes logros de nosso mundo interno, até conseguirmos uma união mística com os verdadeiros ideais arquetípicos que todos sonhamos encontrar. A verdadeira amizade, o verdadeiro amor, símbolo por sua vez da verdadeira união com o Espírito Universal que nos anima.
O amor é, precisamente, uma das expressões mais importantes dentro do contexto da obra Tristão e Isolda. Juntos bebem o cálice da reconciliação, o cálice da morte, mas de uma morte iniciática, símbolo por sua vez de um novo nascimento, de uma nova concepção do mundo, de uma nova natureza purificada. É o cálice do amor, da destruição da morte física: amor, “sem-morte”; é o símbolo da eternidade que só tem fim no plano físico, mas não no espiritual; é o símbolo dos amantes. E sendo a dama símbolo da santa sabedoria, da inteligência transcendente, seu amor e sua posse, fim e recompensa do amante, conduzem à destruição da morte, à transformação espiritual da personalidade.
Tristão e Isolda são os Amantes, com maiúsculas, e nenhum obstáculo pode impedir sua união. O rei Marcos, embora seja seu marido, não pode possuir Isolda porque não lutou por ela como Tristão, e todos os impedimentos constantes que se põem ao seu amor não são mais que uma barreira física que carece de consistência no mundo mágico dos verdadeiros sentimentos. Ambos sofrem penalidades e ofensas, e até são expulsos do reino. Mas em meio da selva, em uma gruta circular como a matriz do mundo, os amantes descansam em um leito de cristal com uma espada cravada entre eles. Essa passagem nos fala dos poderes mágicos atribuídos ao cristal, símbolo da perfeição espiritual, da autoiluminação, da visão interior, simbolizada aqui pela espada que coroa a união mística de ambos.
E do exílio, a separação final, que termina com a morte, a doce morte que os une para sempre. Já não há impedimentos físicos que os proíbam de amar-se, já não há obstáculos em seu caminho até a ascensão final, só o espírito resplandece da vida eterna. E no mundo terrestre, os ciprestes, símbolos da espiritualidade, entrelaçam seus ramos em um arco de triunfo que coroa suas tumbas.
Todo homem, no mais profundo de seu coração, sente saudades dessa ancestral sabedoria que dorme latente no seu mundo interno e não sabe como consegui-la. Muitas vezes, as velhas lendas como essa nos tem feito sonhar e derramar lágrimas. Elas abrirão as portas a muitos homens que buscavam o mesmo que nós, porque obedecem a leis universais do simbolismo. Nelas encontramos o motivo constante da luta do homem para encontrar-se com seu verdadeiro valor, sua identidade interior, seu lugar no Universo. Seus argumentos fazem referência à Criação, ao Paraíso Perdido e Recuperado, à União dos contrários, à Iniciação; ao conflito dos poderes do Bem e do Mal; ao significado da Vida, um significado que pode variar desde o moral e social até o psicológico, mitológico e espiritual, segundo as interpretações e as necessidades de cada personagem. Mas o tema principal é sempre a transformação do homem por si mesmo, a transição do mortal ao imortal, do perecível ao imperecível.
Por isso é bom fazer nosso esse cavalheiro mítico que luta contra a corrupção do mundo com todas as armas resplandecentes, vencendo uma e outra vez as injustiças que o rodeiam, querendo penetrar em sua própria alma. Conquistemos novamente o resplendor espiritual que há de guiar nossas vidas. Sei que a princípio será custoso, o foi sempre para todos os homens que o tentaram, mas enfrentando primeiro pequenas lutas, até descobrir os verdadeiros motores que engendram e nos impedem de ser os verdadeiros autores e donos de nossa própria vida, o resto... nos será dado por acréscimo.
 4.     Bibliografia
·        CADERNO de Cultura. Ano XII. Nº 5. P. 53-56;
·        CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Editora Cultrix/Pensamento. São Paulo. 2007.
·        CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Editora Palas Athena. São Paulo. 2005.
·        CAMPBELL, Joseph. Para Viver os Mitos. Editora Cultrix. São Paulo. 2006.
·        CHEVALIER, Jean e Alain Cheerbrant. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 2008.
·        CREMA, Roberto. Mitos e Ritos: Breve Resenha. http://st.uniolhar.ptws.net/Mitos-e-Ritos.php
·        DIVERSOS, autores. Mitologia – Mitos e Lendas de todo o Mundo. Global Book Publishing. Austrália. 2003.
·        www.rosanavolpato.com.br




[1] Dicionário de Símbolos.
[2] Obra citada.
[3] Manifestação ou revelação profunda de um ser.


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