quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Toque do Clarim - Casa de Euterpe


Ao longe ouve-se inconfundível som...
Os clarins soam nítidos e cristalinos. Seu chamado é um canto de esperança, de guerra e de conquista. A Terra estremece e a música que deles ecoa é capaz de atingir as fimbrias do Ser e fazê-lo despertar de seu sono de séculos.
Aos poucos, asas dormentes começam a se movimentar. Estão pesadas por inércia. É difícil o movimento. Porém, ao tempo em que ouve o chamado das trompas, busca alçar-se em voo como em períodos remotos e quase esquecidos. Ergue-se paulatinamente... procura orientar-se diante do cenário ante o qual se encontra.
Ao longe, observa que exércitos se organizam no Campo de Kuru e orienta a atenção para reconhecê-los. Identifica duas hostes igualmente esplêndidas.
A memória, amiga de sua identidade, resgata antigas imagens e a Alma semidesperta pode nomear os litigantes. De um lado reconhece o exército dos Pandavas; do outro, o dos Kuravas. Recorda a nobre estirpe que ambos representam e vê nessas armadas altivos e destemidos guerreiros dispostos à Vitória.
Ouve generais emitirem ordens de comando e assiste príncipes se posicionarem para a luta. O brilho dos escudos, os uniformes engalanados e as armas posicionadas lhe ofuscam os olhos desacostumados às visões celestiais.
Ao longe, vê centenas de estandartes flamulando ao vento. Hastinapura ergue-se majestosa no horizonte e está em festa. Em suas amuradas pode pressentir uma assembleia de expectadores prontos para ovacionar aquele que ousar conquistá-la.
Percebe que ela própria é convocada à luta e que é preciso escolher em que polo lutar. Estremece de pavor ante a iminência do embate e as asas, antes alçadas, se encolhem novamente. A Alma se contrai sobre si mesma. Recusa-se a olhar para frente. Recusa-se a mirar os exércitos. Recusa-se a proceder à escolha. Recusa-se à batalha. O medo da perda, o medo da dor, o medo da morte impede-lhe os passos.
Nesse estado de terror estupidificante, percebe majestoso carro de guerra posicionar-se entre as hostes preparadas para a batalha. Olha fixamente nessa direção e vê no comando da biga dourada um Ser Esplendoroso. Luz emana em todas as direções. Os exércitos silenciam. A Alma reconhece o Excelso Condutor: Krishna.
É Ele pessoalmente quem comanda a caleça puxada por magnifica quadriga de cavalos brancos. Imponente, o Deus dirigi-lhe o olhar. Mesmo àquela distância pode sentir o fogo que emana dos profundos olhos divinos. Pode sentir o poder que procede daquele Ser Sublime que se dignou a atentar para ela. Comovida, devolve-lhe a mirada.
Ao verificar a correspondência ao seu chamado, Krishna dirige o carro em sua direção... Seu coração se acelera, lágrimas lhe escorrem pela face e se põe à espera da aproximação célere da Divindade. O Deus se acerca dela. Interrompe a corrida e estanca o carro junto de si... Desde o alto, o Celeste Condutor dirige-lhe a atenção, estende-lhe a mão e lhe diz em um sussurro que, apesar disso, pode ser ouvido pela eternidade: VEM...
As asas se movimentam, o ar se revoluta, os clarins emitem novamente sua canção e os exércitos aclamam em uníssono. Ela se ergue de um salto e alcança a Mão que lhe está estendida. É alçada para o interior do carro. Ali, encontra o arco que lhe foi confiado a muito tempo. Empunha a arma e volta a face na direção do Deus. Seus olhares se cruzam e seu pensamento capta o que ele quer lhe dizer: luta... persevera... confia... Eu estou contigo hoje e sempre...

Já não há mais dúvida...

Já não há mais solidão...

Já não há mais medo...

Já não há mais possibilidade de desistência... pois, em seu íntimo mais profundo, sabe que o Divino Mestre jamais a abandonará e que jamais será esquecida...

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