domingo, 30 de março de 2014

Todas as Histórias do Analista de Bagé - Luís Fernando Veríssimo



Delírios

O analista de Bagé às vezes se cansa da profissão - "O que me aparece de louco, tchê!" -, mas sempre diz que consultório de psicanalista, em matéria de tipos humanos interessantes, é "más variado que a baldeação em Cacequi". Só é preciso ter um pouco de paciência. Como na vez em que a Lindaura introduziu no consultório um homenzinho que se apresentou como "João Figueiredo" e em seguida se identificou: "Presidente".
- Buenas. Se abanque, no más.
- Qual é a sua patente? - perguntou o homenzinho, recusando-se a deitar no divã coberto com um pelego.
- Pos é daquelas branca, tchê. Não reparei na marca.
- Digo, patente militar.
- Dei baixa como cabo.
- Fique sabendo que nem o ministro da Guerra manda em mim.
- Mas eu sou do FMI! - disse o analista, levantando o homenzinho e atirando-o em cima do divã.
Foi um caso difícil e no fim do tratamento o homenzinho se declarou curado do delírio de grandeza. Disse que seu nome era Pinto e trabalhava com miudezas.
Mas na saída, depois da última sessão, agradeceu ao analista efusivamente e, puxando-o por um braço, segredou:
- Escuta. Quem vai escolher o meu sucessor sou eu. Se você quiser...
O analista puxou o homenzinho de volta e o atirou de novo no pelego. Quando a Lindaura veio ver o que estava acontecendo, encontrou o analista arregaçando as mangas. Ele perguntou:
- Quem é o próximo?
- Um édipo salteado que não larga a avó.
- Suspende!

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