sexta-feira, 7 de março de 2014

Acerca do Amor - Casa de Euterpe


Photographer Johann Frick

Desde sempre os homens falam a respeito do Amor. Este tema encontra-se presente em nossas conversas e é objeto de inúmeros filmes, músicas, poemas, livros. Canções retratam-no de maneira feliz ou infeliz. Livros discorrem acerca de amores possíveis e impossíveis.
Todavia, o que é o Amor? Como devemos entendê-lo?
Para falarmos desse tema utilizares a herança de Platão. Disse o filósofo que o céu se move por Amor e tratou desse tema em dois de seus diálogos – Banquete e Fedro– principalmente.
O cenário do Banquete de Platão[1] é a casa de Agatón, onde ocorre uma reunião de amigos, entre os quais está Sócrates. Este diz que acreditava que o Amor era belo e bom e, portanto, semelhante a um deus, e foi Diotima, uma sacerdotisa, que respondeu as suas inquietudes quando lhe conta a origem do Amor por meio de um mito.
Quando Afrodite nasceu, os deuses celebraram um banquete e, entre outros deuses, estava presente o deus Poros, filho de Inventiva, cujo nome significa “o que tem recursos, abundância”. Penia, a pobreza, implorou para participar do banquete. Nessa mesma oportunidade, Poros, embriagado de néctar, saiu da sala e entrou no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cansadas. Aproveitando-se disso, Penia deita-se ao seu lado e concebe um filho: o Amor (Eros). Por isso, Eros é o companheiro e o servidor de Afrodite, visto que foi concebido no mesmo dia em que ela nasceu.
Ainda, ele é filho de Penia e de Poros. Do pai, o Amor herdou a avidez pela sabedoria, a coragem, a decisão e a energia. Da mãe, teve como legado a pobreza, a dureza, a falta de lar, o desabrigo, o desconforto e a humildade.
Dessa feita, porque tem uma origem de miséria e de fartura, o Amor germina e vive, para então morrer e ressuscitar; nem enriquece, nem empobrece; mas está a meio caminho da sabedoria e da ignorância, pois como filho de Penia, sempre está procurando algo para suprir o que lhe falta, pois o Amor também é expressão de carência.
Porque busca suprir o que falta é identificável à incansável busca filosófica. Assim como o Amor, o Filósofo também está a meio caminho entre a sabedoria e a ignorância e por isso busca suprir a lacuna. O sábio não filosofa, pois já possui a sabedoria, pois é sábio; também os ignorantes não filosofam porque não sabem que necessitam de filosofar. Por conseguinte, o Amor é o filósofo por excelência, porque consciente de sua falta sai à procura daquilo de que necessita para ser melhor.
Mas o que, afinal de contas, ele busca?
Somos ávidos justamente por aquilo que não temos e que desejamos possuir para sempre.
Esse intento tão cobiçado por todos é o Bem, o Belo. Ou seja, o Amor é Amor para ter para si o Bem, o Belo. Mas como chegar a essa visão? Tudo na natureza percorre um caminho. A natureza não dá saltos! Assim, para a contemplação do Belo em si, também existe uma via, um caminho:
1) Primeiro nasce o amor à beleza corporal. Ama-se um corpo e aos poucos se percebe que o Belo não está apenas em um corpo. Está em outros corpos também; está na Natureza, nos animais, nas montanhas. Nesta etapa buscamos a imortalidade por meio da pessoa amada, da procriação. Entretanto, fixar-se nesse primeiro degrau é permanecer parado, em comparação a tudo o que a pessoa pode vir a ser. Isso não que dizer que se deve negar o corpo ou o amor físico, mas apenas que se deve ampliar esse relacionamento para não permanecer estagnado.
2) Em segundo lugar, nasce o amor à beleza das almas, à beleza moral, ao comportamento e essa é uma beleza muito mais preciosa. Vislumbra-se, aqui, a beleza interior.
Nesta fase, quando permitimos que o Amor nos dê impulso, saímos do particular em direção ao múltiplo.
3) Após essas etapas, desenvolve-se o amor ao conhecimento: amor às projeções do espírito, às ciências, às artes. A beleza da mente é mais maravilhosa que a beleza da forma. Há uma progressão do concreto para o imaterial.
4) No final, chega-se ao supremo: o Amor ao Belo – em si mesmo – que nos é oferecido, que se nos descortina após termos percorrido o caminho anterior. Depois de vivermos de costas para o sol e vermos apenas sombras na parede, subitamente vemos a luz!
Assim, primeiramente, o Amor busca, sim, corpos admiráveis para poder dar à luz, mas após este primeiro momento, ele deve desviar-se para contemplar os belos ofícios; dos belos ofícios para as belas ciências até alcançar o próprio Belo em si. Este não é nem corpo, nem ofício, nem uma ciência particular, mas a Beleza que existe eternamente por si mesma, que não nasce nem morre e que, portanto, é imortal. Assim, o Amor platônico é tão amplo que, embora comece como amor pela forma bela, termina como o Amor à própria Beleza, como um princípio eterno no universo.
No texto seguinte, o Fedro, Platão utiliza-se do mesmo estilo usado no Banquete. Ou seja, Sócrates discorrerá acerca do Amor utilizando-se do dialogo. Após ouvir o que Lísias (famoso orador da época) dizia a respeito daqueles que amam, Sócrates declara que o Amor é um delírio. Não um delírio ruim, mas um delírio divino que está entre as mais piedosas aspirações humanas.
O delírio amoroso torna as pessoas melhores. Assim, quando estamos tomados desse delírio, experimentamos na Terra a divindade que há em nós, tornando real a possibilidade de sermos tais quais deuses no mundo terrestre.
Tanto quanto a alma, o Amor tem em sua origem asas. Aquela em contato com o corpo deixa de ser alada, mas graças ao Amor as asas brotam novamente, tal como no princípio. Essa alma é imortal e devemos ter-lhe tanto esmero quanto nos seja permitido. Descurando da alma, viveremos a fundo apenas a satisfação dos desejos e dos prazeres corporais que ora nos alimentam, ora nos fatigam. Nesse caso, estaremos abrigando apenas Afrodite Pandêmia que é aquela que abriga o desejo apenas do corpo e os prazeres terrenos. Ao contrário, quando damos à alma o esmero necessário, despertamos em nós Afrodite Urânia, aquela que nutre a alma com desejos por prazeres celestiais.
Ainda no Fedro, Platão refere-se à metáfora da carruagem puxada por dois cavalos, um branco e outro negro. O negro representa o amor egoísta que requer a satisfação imediata de seus desejos, sempre orientada pelo egoísmo. Esse tipo de amor não conduz ao Amor universal. O branco representa o Amor verdadeiro capaz de conduzir ele mesmo, o negro e o cocheiro à borda do céu. O condutor da carruagem representa a alma e a carruagem, o próprio Amor.
Assim, observamos tanto no Banquete quanto no Fedro que o Amor nos leva a participar de uma vida imortal e divina. No primeiro texto, o Amor é identificado com a contemplação da Beleza que, em si, é imortal. No Fedro, graças ao Amor, nossa alma pode reabrir suas asas, elevar-se acima do Sensível e recobrar a imortalidade que lhe pertence em virtude de sua natureza própria.
O Amor, portanto, é aquilo que torna possível conduzirmos nossa vida terrena segundo os princípios de justiça, temperança e sabedoria que regem os próprios deuses. Torna possível o impossível e faz com que nos sintamos irmãos acima das diferenças. O amor nos faz sentir e encontrar novamente Deus.

[1] Em grego o título do diálogo é Sympósion, que significa “beber junto”, “celebração entre amigos que bebem”.
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