sexta-feira, 7 de março de 2014

As Expectativas e o Irredutível Muro da Realidade - Casa de Euterpe



Tenho tido a oportunidade de refletir acerca do porque em alguns momentos nos sentimos frustrados. Algumas coisas que esperamos que ocorram deixam de seguir o curso que desejamos e daí sentimos uma sensação de impotência, de frustração.
Porque isso acontece?
Uma coisa que devemos entender é que no âmago de cada frustração repousa uma estrutura fundamental: o choque entre um desejo e uma realidade imutável. Sêneca, filósofo romano e representante da escola estoica, dizia que a frustração aparece quando nossas expectativas batem violentamente contra o muro da realidade! Ou seja, projetamos e, muitas vezes, fantasiamos situações que quando confrontadas com a realidade teimam em seguir seu próprio curso e não aquele que traçamos…
Esses choques têm início quando somos crianças, com a descoberta de que as fontes de nossas satisfações estão além do nosso controle e que o mundo não se ajusta aos nossos desejos de forma confiável. Na infância, vamos descobrindo que nossos anseios nem sempre, ou quase nunca, são satisfeitos plenamente.
O ideal seria que fossemos aprendendo com tais experiências de forma que chegássemos à idade adulta instruídos em como lidar com as frustrações ou como evitá-las. Porém, o que podemos constatar é que isso não ocorre, pois quando alcançamos a maturidade parece que temos ainda mais dificuldades em lidar com elas do que tínhamos na infância.
E, no entanto, para Sêneca, só atingimos a sabedoria quando aprendemos a não agravar a inflexibilidade do mundo com nossas reações, nossos ataques de raiva, autopiedade, ansiedade, amargura, hipocrisia e paranoia.
O que, então, precisamos aprender é que suportamos melhor as frustrações para as quais nos preparamos e compreendemos. Ao contrário, somos atingidos por aquelas que menos esperamos e não conseguimos entender. A filosofia deve nos harmonizar com as reais dimensões da realidade, e desta forma nos poupar, se não da própria frustração, da panóplia de emoções que a acompanham.
Sua tarefa é nos preparar para que nossos desejos batam com a maior suavidade possível contra o muro inflexível da realidade.
E, na opinião de Sêneca, o que nos deixa irritados são os conceitos perigosamente otimistas sobre o mundo e as pessoas (expectativas). Então, é necessário que diminuamos as expectativas que temos em relação ao mundo e às pessoas.
Naturalmente, haveria poucas realizações humanas se aceitássemos todas as frustrações, pois a força que nos move, nossa engenhosidade está na pergunta: “é necessário que seja assim?”. É essa pergunta que gera reformas políticas, desenvolvimento científico, melhoria dos relacionamentos, melhores livros, músicas, filmes.
É difícil reter as faculdades mentais que buscam incessantemente alternativas. Elas continuam a promover mudanças e trazer progressos, mesmo quando não existem esperanças de se alterar a realidade. Assim, a sabedoria está em distinguir corretamente as situações em que estamos livres para moldar a realidade de acordo com nossos desejos daquelas que nos obrigam a aceitar o imutável com tranquilidade.
Para Sêneca, existe o mesmo grau de irracionalidade em se aceitar como necessário algo que não é necessário e em se rebelar contra algo que é necessário. Podemos, com a mesma facilidade, cometer o mesmo erro, ao aceitarmos o desnecessário e negarmos o possível, e negarmos o necessário e desejarmos o impossível. Cabe à capacidade de raciocínio estabelecer a distinção.
Dessa forma, precisamos fazer maior uso da razão ao invés de deixarmos que nossas emoções controlem completamente nossa vida.
Precisamos diminuir nossas expectativas diante das coisas sobre as quais não temos controle e cujo resultado não depende, absolutamente, de nossa ação.
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