quinta-feira, 6 de março de 2014

Vaga-lumes por ai…- Casa de Euterpe




Há algum tempo, sai com meu filho e a sua namorada. Como são adolescentes, além da função de motorista, temos de nos contentar em ouvir as músicas que eles ouvem! Daí resignei-me em abrir mão de Fauré e prestei atenção ao que tocava. Ouvi algo assim: “vou caçar mais de um milhão de vaga-lumes por aí…”

Interessante que ao ouvir esse verso, despertei-me a refletir acerca dos vaga-lumes. Lembrei-me do quanto são bonitos quando salpicam a noite com suas pequenas luzes. Na minha infância não cansava de vê-los quanto ia à fazenda de meu avô. Às vezes, capturava uma porção deles e os prendia por alguns instantes em um vidro. As luzes iam e vinham e, na verdade, não duravam muito, pois logo se apagavam para sempre. Isso era meio frustrante. Todavia, eram bonitos… ah!, isso eram…

Fiquei a pensar que na vida também nos encantamos com algumas coisas tão lindas quanto a dança noturna dos vaga-lumes; tão fascinantes quanto esses pequenos insetos brilhantes, mas que também são tão fugidias e fugazes quanto eles. Encantamo-nos com coisas ou situações que têm essa mesma duração e às quais damos tanta importância quanto se fossem perdurar pela eternidade.

A moda é um exemplo. Quanto tempo passamos hipnotizados por anúncios de produtos que nos agradam hoje, mas que amanhã já estão obsoletos e que, ao final, são absolutamente desnecessários? Ocorre que enquanto nos aprazem não conseguimos ver que podemos prescindir deles e que jamais nos farão falta. Até deixarem de nos agradar ou nos interessar, sofremos o tormento do desejo de possuí-los e revertemos nossa energia para essa conquista que, ao final, mostra-se tão efêmera quanto o brilho dos pirilampos.

O mesmo ocorre com os sentimentos, as paixões. Ao longo da vida nos deixamos seduzir por emoções que nos parecem definitivas, determinantes. E por elas lutamos e sofremos, fazendo com que toda nossa força se volte para senti-las e vivê-las. Por vezes, tornam-se um vício e já não conseguimos passar sem elas, embora, na maioria das vezes, não nos acrescentem nada, não nos fazem bem e sejam, ao final, uma fantasia que nos seduz como as luzes dos vaga-lumes.

Em nível mental também nos deixamos capturar. Quantas ideias, conceitos e preconceitos defendemos ao longo da vida sem nos permitirmos parar para refletir acerca de sua validade? Entendemos que são viáveis, factíveis e verdadeiros apenas porque “todo mundo” pensa assim; ou porque uma determinada vertente política, científica ou religiosa abriga essas mesmas ideias. Em nenhum momento paramos para ponderar se têm realmente algum significado e nos recusamos a pensar por nós próprios. Até porque pensar por si próprio é mais difícil do que se deixar arrastar por uma nuvem incandescente de vaga-lumes. Isso até que outra nuvem passe e nos arraste em outra direção.

A sociedade atual nos imprime a aceitação dessas formas fugidias e nos deixamos levar por elas. O resultado de tudo isso é uma sensação de vazio interior, de incompletude – às vezes, agravada por sintomas de depressão e fobias de todo gênero – que surge todas as vezes que esses lumeiros noturnos desaparecem.

Assim, urge que passemos a nos interessar por coisas, sentimentos e pensamentos que durem mais do que o piscar dos pirilampos.

Se os homens que conformaram as antigas civilizações tivessem essas mesmas necessidades efêmeras, as pirâmides jamais teriam sido construídas; a Tetralogia de Vagner jamais teria sido composta, a Vitória da Samotrácia jamais teria sido esculpida; a Capela Sistina jamais teria sido pintada. Isso porque a elaboração de todas essas obras exige amor por sentimentos e emoções que duram muito mais do que o momento atual em que estão sendo vivenciados. Essas obras foram elaboradas por homens que acreditavam na eternidade e para ela viviam e construíam.

Da mesma forma, caso queiramos ter solidez em nossas ações, emoções e pensamentos, precisamos nos interessar por valores que transcendem o tempo e durem infinitamente mais do que o brilho dos vaga-lumes. Precisamos agir, sentir e pensar com o olhar posto em um Sol interno que brilha eternamente dentro de nós. Dessa forma, nossas ações, nossos sentimentos e nossas ideias também terão como alicerce o valor do duradouro, do estável e do eterno e nos dará também uma satisfação duradoura, estável e eterna.



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