quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014





“Não importa se a estação do ano muda”...
Se o século vira, se o milênio é outro.
Se a idade aumenta...
Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela."
Fernando Pessoa
                                                                                                                                      

Poderia escrever acerca da Vontade de formas diversas, mas achei interessante partir de sua descrição iconográfica. As imagens podem ensinar mais que as palavras. Assim, usem a imaginação para visualizar a ideia descrita a seguir.
Cesare Ripa, in Iconología II, representa a Vontade como uma mulher jovem com uma régia coroa e levando asas. É semelhante a uma Rainha que, assentada na parte mais nobre e mais elevada do homem, dispõe suas leis. Com uma de suas mãos sustém um Mastro, cuja vela está inchada pelo vento enquanto que com a outra mão, colhe uma flor de Heliotrópio. É representada regiamente coroada, pois é tida como rainha. A vela inchada demonstra que os ventos de nossos pensamentos, quando estimulam a vontade, fazem com que a nave, ou seja, todo o homem, tanto em seu foro íntimo, como em seu aspecto externo, se mova e se encaminhe para onde ela o arraste.
Enquanto o Heliotrópio,[i] que sempre segue a órbita do Sol, nos indica que o ato de vontade não pode ser julgado por si mesmo, mas por seu objetivo que se reputa um bem e é como tal considerado, o qual, em consequência, impulsiona sem remédio a dita vontade à ação de querer e ao feito de mandar sobre nós mesmos.
Dessa precisa definição, verifica-se que a Vontade não deve ser confundida com o mero desejo, pois como Rainha assentada na parte mais elevada do homem não se conforma com caprichos do querer. Quando se diz: “tenho vontade de comer, dormir, viajar, consumir...” não se está referindo à essa virtude, mas aos desejos que consomem e condicionam, a uns mais, a outros menos. A vontade nasce de um querer inteligente e não de desejos criados pela propaganda ou pela moda, os quais até a pouco tempo nem se imaginava possuir!
Continuem seguindo a descrição de Ripa. Vejam que a alegoria da vela insuflada pelo vento indica que a Vontade é instrumento poderoso para que se alcancem todas as metas, tanto interiores quanto exteriores. Nasce de uma decisão lúcida acerca de aonde se quer chegar e de uma capacidade também lúcida de manter o impulso até chegar lá. Permite que se fixe um objetivo e se caminhe com passos seguros que levarão até ele. Projeta um prolongamento no tempo e não cede no seu esforço enquanto não alcança o objetivo fixado.
É por meio desse vento propulsor que se consegue vencer um hábito, que se depura uma emoção, que se clarifica um pensamento e que, ainda, se alcancem todos os objetivos que foram traçados de forma consciente e inteligente.
Diante desse contexto não há mais que falar em “falta de sorte” ou de tempo; não há mais que se responsabilizar o meio onde se vive ou a forma com que foi criado, ou de qualquer outra coisa, quando se deixa de conseguir algo a que se propôs. É imperioso entender que essa incapacidade momentânea ocorre enquanto não se imprime à Vontade a força necessária para chegar até o alvo. É como se naquelas velas ainda não soprasse o vento que encaminha a embarcação ao seu porto de destino. Entendam que somos a embarcação e o vento!
Vê-se também que a jovem rainha colhe a flor do Heliotrópio, flor esta que acompanha o movimento do Sol. Nessa chave, o ato insuflado pela Vontade não é bom ou mau por si mesmo. É uma força e é preciso, antes, que se lhe observe o objetivo. A sociedade está repleta de exemplos de pessoas que possuem inquestionável força de vontade, mas que nem sempre alcançam resultados dignos de serem relacionados com a nobreza que a representa. Assim, é preciso atentar para o valor daquilo que se almeja. Não basta o ato volitivo, é necessário qualificá-lo de forma que espelhe a Bondade, a Beleza e a Justiça!
A grande filósofa do século XIX, Helena Petrovna Blavatsky, dizia que a Vontade constrói os Universos manifestados na eternidade. Ou seja, tudo o que se vê construído no mundo, é rastro da Vontade. A Vontade, então, deixa como rastro o Universo visível.
É preciso refletir: “que tipo de rastro quero deixar?” Marcas que provoquem sadio orgulho de ações e de conquistas? Ou marcas diante das quais pessoas se curvarão, envergonhadas, diante de si mesmas?
É preciso deixar que soprem os ventos da Vontade para que todos os barcos cheguem ao seu ancoradouro, cumpram seus objetivos.
É preciso que tais portos sejam dignos e capazes de fazer com que, uma vez ali, os homens se vejam melhores, mais elevados e mais verticais!


#casadeeuterpe   #vontade   #iconografia


[i] sm.
1. Bot. Nome comum às plantas boragináceas do gênero Heliotropium, de flores miúdas, freq. roxas ou brancas, muito us. na medicina caseira e com fins ornamentais.
3. Bot. Ver girassol.
[F.: Do tax. Heliotropium < lat. heliotropium. Ver heli(o)- e -tropo.]
heliotrópio2 (he.li:o.tró.pi:o)
1. Bot. Qualquer planta cujas flores se voltam para o Sol.